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19 de mar. de 2014

Olhos de poeta

Viu que jamais existiria ângulo igual.

Era uma rua simples, pisada incessantemente por seus transeuntes. Deixavam marcas onde pisavam, traziam areia de outros lugares. Traziam nos pés as suas angústias; na força dos passos, suas dores. 

Pessoas, apenas. Em uma rua aparentemente insignificante.
Rua banhada pelo sol. Iluminada, divinamente iluminada. Luz que ninguém via. Os moradores, acostumados com a mesma luz nas mesmas paredes, jamais notaram sua beleza.

"Malditos olhos de poeta!" - pensou.

Em vão, fez perguntas aos seus vizinhos sobre a origem daquela beleza. "Não há beleza nenhuma! E o que vês sempre esteve aí." Porém, havia algo. Uma beleza dolorida habitava-lhe a alma ao abrir a janela do seu quarto. 

Eram os mesmos paralelepípedos de sua infância, banhados pela mesma luz. Eram os mesmos moradores, só estavam maltratados pelo tempo. Era a mesma casa. 

E o algo? algo que lhe arrancava lágrimas, uma dor vazia. O que era?

Suspirou, fechou os olhos e sorriu. Tinha um dia pela frente, embora o sentimento inexplicável não lhe abandonasse.

9 de jan. de 2014

Sopro

A saudade tem um gosto de quem nunca viu. Talvez eu seja uma personagem sem nome com identidade adulterada. Desmanchando aos poucos, perdendo o dom. Olhando triste, errando o tom. Exagerando nas doses, esquecendo o batom. Me deixei levar pela métrica da poesia e agora está tudo acabado. Talvez seja excesso imaginário ou dor sufocada. Sempre existirão duas opções, três ou mais... Algo está acabando ou está tudo sendo repetido? Não importa. Só sei viver o hoje, no máximo, pensar em todos os amanhãs.

Da saudade ela entende bem. Nas ruas frias ela se destaca pelo olhar congelante, as mãos nos bolsos e os bolsos desaguando no âmago. Ela tem tons apagados de quem se perdeu e encontrou o caminho há poucos minutos. Os olhos falam mais que as palavras. Os pensamentos tão perfeitos desaguam em imagens cinematográficas que jamais filmarão. Ela não expressa, não espera. Ela se desespera e soluça, um soluço escondido. Se esconde do próprio reflexo e evita ver no espelho a tristeza da expressão. Esquece do corpo, esquece das pausas, esquece das causas, esquece dos amores e lembras dos pontos finais. E são tantos pontos, mas tantos, que já são reticências infinitas.

Da solidão ela entende bem. Fingir sorrisos e conversar sobre coisas triviais não é assim tão complicado. Atirar pedras no lago é algo demasiadamente complexo quando não se tem um lago. São fontes, pontes e estátuas que trazem um amor eterno. Torres e calçadas. Ruas entupidas de gente sozinha. E a solidão dela é a mais profunda, escorre, é sinuosa como um rio.

Talvez eu seja uma personagem com uma crise existencial. A cidade falsa me cerca com esse caos sem fim. Me cerca, me resseca, me desperta sem conseguir me acordar. A cidade é culpada. A cidade é a minha solidão. São os olhares que não cessam e me deixam no chão. Meus passos rápidos me assustam. Meu movimento menos brusco é um susto para os meus olhos. Esqueci de onde vim. Eu esqueço, ouço e não permaneço; te beijo com os olhos e te esqueço. Mas não esqueço, é só vontade.

De olhares ela entende bem. Foram tantos olhos que ela encontrou durante esses anos. Tantos vazios e sem rumo; outros ela não queria ter visto; uns ela esqueceu sem querer. Alguns olhares falaram, sorriram; outros choraram num simples piscar. Outros revelaram as próprias almas e ela guardou as informações nos ventrículos do coração.

Com abraços ela é exigente, são poucos os que ela gosta. Ela lembra de todos os abraços dos quais participou. "Abraçar é uma arte que poucos compreendem." Ela me disse isso e eu não consegui compreender a complexidade que ela enxergava e eu sequer sabia da existência. 

Contabilizei os abraços que já recebi, anotei os nomes das pessoas. Tenho que publicar essa lista em algum jornal, antes que a lembrança dos abraços seja falsa. Tenho medo dos abraços falsos e das pessoas que fazem isso. E agora? 

Ela entende tanto de tanta coisa e me disse que não sabe de nada. É uma insegurança pura de quem sabe da própria capacidade e não quer saber. Dos amores, ela só diz saber amar. Amei-a em silêncio desde que ela disse gostar do silêncio.

Ela entende tanto de tanta coisa e me disse que não sabe de nada. Ela entende tanto de tanta coisa e me disse que não sabe de nada. Ela entende tanto de tanta coisa e me disse que não sabe de nada.

É um mantra.

Eu chorei tanto sem sentir nada. Eu senti tanto sem chorar por nada. Eu amei tanto sem ser acompanhada. Eu esqueci tanto, ao ponto de ser lembrada. É passado.

Eram mantras.

Hoje eu amo como alguém que sonha. Amo como se escrevesse minha história para milhões de pessoas. Amo como quem jamais amou. Hoje eu amo, amanhã também amarei. E será sempre a mesma pessoa. Amo apesar da distância, apesar dos pesares, apesar do peso e da leveza formando uma mistura heterogênea. E ao lembrar desse amor eu transbordo, não canso de gritar isso aos quatro cantos do meu eu. Por mais que do meu ser eu esqueça, esse amor permanecerá.

15 de dez. de 2013

Colapso

O desejo existe. E saber disso só me faz desejá-la cada vez mais. O desejo de não encontrá-la somente nas palavras, mas em uma rua qualquer; em um dia quente, perto de uma árvore. Vontade de acabar com a saudade e sentir a presença. Vontades, vontades... O que posso dizer da ligação não feita? Os dias transformaram-se em algo diferente da rotina e do passar das horas. Palavras no ar, flutuando. Sentimentos. Madrugadas. Decisões.

Amor artístico? Amor para inspirar? Amor para amar? Para saciar, variar, compensar? Amor para quê? Amar para quê?

Encontrar uma sensibilidade próxima, um sonho coincidente, uma esperança vagabunda. Um sentimento inferior de tão superior que é. Encontrar no amor, na carne, na falta de pudor? O que podemos descobrir nesse mundo repetitivo? O que posso encontrar de exclusivo em mim? O que há de novo em nossas almas?

Como podemos amar nessa cidade caótica, com esses corações de fibra ótica? Como seremos gente, como viveremos entre os que só sobrevivem? O que nós pensamos ter de diferente, para sermos assim, tão diferentes? O que eu fiz para estar nas garras do teu (des)amor?

Ainda somos humanas?

Diferença. Essa vida cheia de perguntas nesse apartamento sem mobília. O que faremos no meu ateliê-biblioteca?

Pintar esse raio de sol batendo nesse prédio cinza. Pintar esse teu corpo deitado no tapete barato. Somos corpos, apenas corpos. Somos almas, apenas almas. Estamos juntas pelo pouco tempo que o sono nos permite estar. Quatro olhos castanhos, dois corpos brancos pela falta de sol, dois sorrisos tímidos. Dois delírios perfeitamente possíveis de duas mulheres perfeitamente reais.

Insaciedade, o que nos move.

29 de out. de 2013

Every teardrop is a waterfall

O mundo é diferente quando se está em um ângulo diferente. O vento frio não é o mesmo em lugares distintos. A noite está escura, mas não o bastante. Os horários são apenas pré-determinações. Músicas passam, repetem-se e caem no esquecimento. Aceitar é mera escolha.

São dez da noite e só lembro que caminhei por vários dias. Areia, suor, cacos de vidro e fuligem fazem parte do meu corpo. Provei da indiferença, comi no prato vazio da fome, caminhei ao lado da solidão... Deixei que os motoristas decidissem, desafiei o perigo em uma estrada de mão dupla. Nada era maior que o vazio que carregava em mim. Fui animal entre pessoas animalescas. Fui criminosa sem cometer crime algum. Minhas roupas e meus sapatos perderam suas formas originais, meus óculos transformaram-se em cacos numa rua vazia. Quarteirões, quadras, praças. Eu vivia sem existir. Continuo assim. A sujeira que agora faz parte do meu corpo. A sujeira foi e é meu corpo. A solidão foi e é minha companheira. 

Os sentimentos nunca foram tão reais no meu âmago. As palavras são seres diferentes do que eu imaginava. Estou em uma fase contemplativa, meu espírito é um simples ser-telespectador. Contramão. Fogo, terra, água, ar. Elementos, seres, egos, estranhos. São tantos caminhos e regredir é tão anormal. Aceitar rótulos é tão inexplicável. Somos como somos e quem somos. Contemplo e existo, independentemente da minha condição.

Recomeços são caminhos tão ambíguos, às vezes, tão estranhos. Mas, recomeçar é um ato de coragem. Qualquer ato, por mais inútil que seja, é um ato de coragem. Recomeçar é estranho aos olhos daqueles que esperam a aceitação da derrota. Uma palavra não possui apenas um significado, uma ação não possui apenas um reação.

Embora a poeira e a fuligem ainda façam parte do meu corpo, a fé que tenho na humanidade é maior que tudo. Acreditar na humanidade é acreditar em Deus.

Que eu seja.
Que tu sejas.
Que ele seja.
Que nós sejamos.
Que vós sejais.
Que eles sejam.

Amém.

11 de out. de 2013

Bruxuleante

Estava linda sob a luz do poste da rua. Diferente de todas, passou com seu passo leve sem que nenhum homem da rua percebesse a sua presença. Uma energia diferente de todas que já senti. Parecia uma moça dos anos cinquenta, ou trinta. Não precisava de salto para estar elegante, não precisava de nada em um tom chamativo para chamar a minha atenção. Olhava para frente, não me viu. Um jeito inocente e orgulhoso de caminhar. Uma blusa branca e uma saia rodada. Branco e preto. Uma alma que transpirava pureza, cabelos lisos e uma franja no rosto. Apaixonei-me. Caminhava, na calçada, na rua. Seu lado direito iluminado, seu lado esquerdo coberto pela escuridão da noite. Queria ter a coragem de gritar: "Menina, me diz teu nome!" Com o nome dela queria batizar este texto. Com a pureza dela, purificaria o mundo. Com o rosto sério, ensinaria o mundo a valorizar a seriedade na hora certa. Foram poucos os minutos que pude vê-la. Em um segundo iluminada, no outro, ocultada sob a sombra das árvores. Os homens não viram, nem os meninos, nem rapazes. Será que só eu a vi? "Menina, me diz teu nome!" Quero que o mundo saiba da tua existência! Ela mora na mesma rua que eu, poucos metros de distância dos meus olhos. O que fará agora? Ah, como queria saber seu nome. Metade luz, metade trevas. O laranja dos postes, o negro da noite. O negro das tuas sapatilhas, da tua saia, dos teus olhos que não vi bem, dos teus cabelos. Não sorria, mas irradiava beleza. Uma vez só, pronuncie seu nome.

8 de out. de 2013

Parto

Sol em brasa, tarde quente. Corpo morno na água fria, o toque gelado dos pingos e nada mais. Incontáveis obstáculos no meio do caminho, incontáveis pessoas no meio do caminho. O olhar de cada uma delas. O que pensará cada uma delas? Olhar inseguro de mulher quase sozinha, quase vazia, quase transbordando. A tarde quente, cansaço transbordante. Asfalto fervendo, pessoas nascendo, pessoas morrendo. Dores fortes no peito, um sinal de infarto. Dores fortes no abdômen, sinal de parto. Intervalos entre uma contração e outra, pequenos momentos de paz e contato com o paraíso. Vida querendo viver, desespero começando a aparecer... Um telefone a poucos metros, um caminho longo demais para seguir. O grito vindo de dentro como algo libertador, a experiência de, sozinha, ser mãe. A ousadia de - em uma tarde extremamente quente - padecer em um apartamento solitário, de um condomínio sem vizinhos.

Intervalos cada vez menores, medos cada vez maiores. Ousadia de ser algo mais na solidão, na pequenez de um apartamento silencioso. O suor pingando na testa, a força chegando nos braços. A naturalidade do corpo em expulsar aquele estranho-novo corpo. Sem amparo, sem apoio, sem festa ou outros olhares. Apenas a solidão ocupando espaço e tempo, na solidão do mínimo apartamento. A música cada vez mais baixa no rádio. Quem canta, Cazuza ou Chico Buarque?

A tarde cada vez mais quente, suor cada vez mais úmido. A dor persistente e sem intervalos. Tudo fora do alcance das mãos, exceto a criança que está quase chegando. O chão e o suor são as únicas coisas úmidas. Os gritos de dor que ninguém escuta, não há pessoa que acuda. Quase sem forças. De tanto sentir a dor, já estava acostumando... A dor parecia ocupar mais espaço naquele apartamento, diminuindo a solidão da mulher sofrendo. A dor ocupando mais espaço, enchendo a sala, aproximando-se do telefone, afastando-se dele. A dor simples, correndo por todos os cantos desvendando todos os objetos. A dor cumprindo o seu papel em uma tarde em brasa.

De tanto sentir a dor e toda sua imensidão, transformou-se em delírio. Delírio quase grito, o fim quase no início. O suor de tão gelado transformou-se em fogo. A tarde deixando de ser quente, a dor deixando de doer, o delírio esquecendo de delirar. Apenas mais um grito profundo. Um sorriso.

18 de set. de 2013

As moças

Originalmente postado em: Amiga da Leitora

Our steps will always rhyme,
You know my love goes with you

As your love stays with me,
It's just the way it changes
Like the shoreline and the sea.
[...]
Hey, that's no way to say goodbye.
- Leonard Cohen


Tudo no lugar, limpo, sem os grãos de poeira que ainda te viram aqui. Só o cheiro do seu perfume ainda está aqui, maldita a hora que quebrei a primeira coisa que tinha perto das mãos. Até as formigas parecem mais lentas depois que você se foi. Sexta-feira, meio-dia, você andando de uma ponta a outra do quarto, esfregando as mãos. Até que eu, preocupada, como quem não quer nada, acendo um cigarro, largo o livro e puxo conversa.

   - O que houve? Você está estranha, preocupada, quase sufocando... Quer conversar?

Silêncio. O gato quebra mais um prato na cozinha. Nenhuma voz. Duas moças caladas em um apartamento que as duas decoraram, há cinco anos atrás. Lísia ainda fumava, pés descalços, soltando fumaça pela boca como alguém superior, alguém que quer respostas. Luísa estava parada, olhando Lísia fumar, vendo o corpo delineado da moça suando de tanta expectativa. Lísia era a mesma, atrás dos óculos vermelhos, do sorriso que não mostra os dentes, do livro nas mãos, do riso musical e escandaloso; tímida, com cara de misteriosa, algo que realmente era, já que ela parecia ser um mistério indecifrável. Luísa era mais baixa, com um corpo de brasileira, como dizem por aí; sorria sem medo, odiava cigarros, mas adora ver sua moça fumando na janela, provocando-a com a maior naturalidade do mundo. Nomes quase iguais, idades iguais e signos que não possuíam compatibilidade.

   - Luísa, fale. Você está assim há um bom tempo. Eu posso te ajudar, você sabe disso.
   - Como, se você é o problema?
   - Foi algo que eu fiz? Algum rapaz que fiquei? Você sabe que aquele rapaz não significa mais que você, nunca estive apaixonada por ele!
   - Seus ficantes nunca me incomodaram, você sabe. Você sempre foi livre para amar quem quisesse e até acho isso bonito. Te conheci assim, te quis assim. Só que eu não aguento mais te olhar e te esconder a verdade, te vejo tão inocente, com um short destruído da época da sua adolescência, com esse olhar puro de quem sabe tudo, com esses cachos presos, com livros nas mãos... Acabou-se o amor que eu tinha por ti. Não sei explicar! Há tempos eu finjo que ainda te gosto, mas só te vejo como um enigma bonito de se ver. Você é admirável, mas eu não te admiro mais. Morreu algo que eu queria eternizar.
   - Eu nunca dei sorte para o amor. Não sei qual milagre te trouxe para os meus braços... Duramos muito, até. Não é?

E não era. Lísia chorava um pranto infantil, apagou o cigarro com os dedos. O fogo queimou os dedos da mão esquerda, mas não doía. De repente, começou a prender os gritos que vinham junto com as lágrimas, o choro não era mais infantil. Com ódio nos olhos, fitou Luísa como se fosse matá-la, quebrou um vidro de perfume na parede e disse o maior número de palavrões que conseguiu. Era uma dor nova, sufocava. Era pior que respirar pela primeira vez ao nascer. Mas decidiu parar de chorar, passaram-se horas. Lísia caída, tentando juntar seus pedaços. Luísa calada, de pé, esperando aquela moça falar alguma coisa. O choro de Lísia cessava, ela saiu da cadeira, vestiu uma blusa e colocou o celular no bolso.

   - Vá, Luísa. Você é tão livre quanto eu, quanto qualquer pessoa. Ainda te amo, vai demorar um tempo para acostumar com a ideia de estar sozinha aqui. Eu que sempre adivinhei tudo, que sempre li as entrelinhas dos teus gestos, eu que... Eu não desconfiei do amor morto que você carregava na alma, carregava-o como a mãe carrega o filho morto no ventre, esperando que ele renasça. Vá, mas por favor, volte logo se descobrir que foi engano. E não me procures mais se o fim foi verdadeiro. Ligue quando já estiver um pouco longe daqui, só voltarei quando não estiveres mais. Não quero assistir a última cena da peça que escrevemos. Foi maravilho enquanto existiu amor.

Luísa permaneceu calada, apenas confirmou com a cabeça tudo o que Lísia dizia. Era dolorido ver aquela menina pela última vez, naquela situação, chorando por todas as dores do mundo. Era só mais um amor que chagava ao fim e isso era normal demais. Lísia que sempre foi exagerada em tudo... Em breve, outra moça estaria ali, ocupando os mesmos cômodos, ou um rapaz. Ou ninguém. 

O celular de Lísia não tocou naquela tarde, nem no dia seguinte. Só na noite de domingo Lísia teve coragem de voltar. E sim, ela havia ido embora. Metade do guarda-roupa estava vazio, faltavam livros na estante, o vidro de perfume continuava estilhaçado no chão. Nada de cartas ou bilhetes, apenas a partida fria de quem já amou demais.

9 de set. de 2013

Siddhartha

P.S.: Texto originalmente publicado no blog Amiga da Leitora.

Sábia mente vazia. Todo conhecimento ao chão, espalhado, destroçado. A alma na estrada, em algum carro antigo; carro comprado pelo menor preço possível, alma liberta pela falta de preço. Cabelos curtos, a falta do dinheiro causando uma magreza frágil, Joni Mitchell no rádio do carro. Uma carteira de cigarro no banco do passageiro. Cigarros só são bonitos se você não acendê-los, por isso, sempre andei com cigarros e sem isqueiros ou fósforos. Estou vivendo a vida que meus ídolos admirariam. Ídolos que morreram por amarem demais o mundo e odiarem eles mesmos. Ídolos, meus ídolos... Pés de barro, pés como os meus. Sem diplomas, sem emprego definido. Quase cheguei ao ponto de vender os únicos trapos que vestia, trapos que nada valiam. Escrevendo contos, dormindo na casa de desconhecidos ou ao relento. Meus pais em uma cidade distante, do outro lado de um oceano sem nome. Meus pais... Será que sentem saudade da ovelha negra da família católica e conservadora? Saí de casa quando completei dezoito anos de idade, depois de deixar toda a minha família escandalizada. Descobriram que eu morava e namorava com dois rapazes. Foi um caos, o caos. De nada adiantou explicar os conceitos do poliamor. Na língua deles, aquilo não passava de falta de vergonha na cara. Eu, extremamente feminista, fazia o que bem entendia, amava quem eu queria, jamais aceitei casar na igreja. Meus pais me amavam e odiavam na mesma medida. Nunca pude mudar o meu eu. Era ser o que minha alma gritava ou matar-me.

Eu, tão sensível e tão incompreendida. Uma faculdade quase terminada, faltando três meses para receber o diploma, tranquei o curso de Jornalismo. Até a escolha dessa profissão enojava meus pais. Eu poderia ser professora, médica, qualquer coisa... menos feliz. Escolhi a liberdade e a solidão. O amor seria para sempre a minha necessidade secundária. Conheci cachoeiras, mares, cavernas e solidões. Conheci rapazes certinhos, idiotas, marombados e hippies. Só os hippies me ensinaram a ser feliz. O primeiro hippie que conheci se chamava Diego. Tinha dezoito anos quando o conheci, ele havia nascido no mesmo dia que eu, na mesma hora, mesma cidade e na mesma maternidade. Ele dizia que éramos cópias, os seres perfeitos que por acaso encontraram-se. Com ele fugi de casa, fugi do país, aprendi meia dúzia de idiomas, fugi de continente, aprendi yoga, magia e meditação; com ele tive meu primeiro filho que morreu antes de completar os nove meses da gestação. Era um menino, chamava-se Siddhartha; nós o enterramos e um lugar desabitado e no túmulo dele plantamos uma árvore. Nosso menino ganharia a vida que perdeu.

Hoje, dez anos depois, estou no lugar onde enterrei meu filho. A árvore é frondosa e inexplicavelmente bela. Siddhartha... Ao enterramos nosso filho, decidimos que era a hora de uma separação. Eu fui para o México, ele foi para algum lugar da América Central. Hoje voltei para o Brasil, a terra que me deu vida. Embaixo das folhas de meu filho fiquei. Permaneci esperando Diego. Doze meses se passaram desde que cheguei, só depois de doze meses Diego chegou. Acabou preso ao ser encontrado sem documentos, mas ali estava ele. Com algumas rugas, rugas adquiridas por sorrir demais. Os longos cabelos estavam menores, os olhos tinham a mesma alegria. Abraçou Siddhartha sem acreditar na mudança dele. Não era uma árvore, era nosso filho. Juntos, passamos quinze dias com nosso filho. Meditamos, comemos os frutos que nosso filho nos dava, rezamos, sorrimos, choramos... Nosso amor ainda estava vivo, assim como nosso filho. Mas, seres que foram destinados a amarem-se para sempre jamais permanecem juntos. Diego beijou meu rosto, eu beijei as mãos dele. Em uníssono nos despedimos.

Mais uma vez saí sem destino. Um pouco angustiada, mas sorrindo. Do outro lado do mundo existia um homem que me amava, um filho que estava preso ao chão com suas raízes. Tudo era perfeitamente estranho. Pela primeira vez acendi um cigarro.

26 de ago. de 2013

Primitivos

Era tarde da noite, noite da tarde. Praça escura, vento frio, ruas desertas. Sombria, corria, fugia, gemia. Possíveis estupradores andam de lá para cá. Almas solitárias caminham, olham, espiam e vão. Guardas estaduais me olham e caminham. Os tijolos falam, o asfalto fala. Minha alma voa, meu corpo pesa. Buscando o vazio de Sidarta? Distanciando-me do meu eu? Ah, gota d'água no mar. Saindo da redação depois da meia-noite e sempre a mesma praça. O mesmo medo, mesmo verde, mesma escuridão. A mesma falta de amor. O corpo intocado. Falta de esperança. Apenas o corpo supostamente sábio e a solidão. Caminhando pelas ruas, o medo torna-se obstáculo secundário. O passado é a única coisa que realmente existe. O futuro é sempre um obstáculo, estou sempre alcançando o futuro. O medo permanece.

Noites passadas, corpos quentes na ponta da cama. Da imensidão da cama de solteiro, menos da metade dela lhes bastava. O rádio reproduzindo uma música séria demais para um momento que só envolve instinto. Só instinto. Os dois juravam ser o "tudo" um do outro. Os dois sabiam que as palavras eram puras mentiras, mentiras doces de dois animais. Ah, o desamor.

E depois do trabalho, quem era ela? A solitária, que precisava sempre ter um amor que nunca tinha? O amor era necessidade secundária, pelo menos era o que ela obrigava-se a acreditar. A fumaça do cigarro se desfazendo, os passos leves e firmes. A esperança de encontrá-lo atrás de um poste, numa rua escura. Encontrá-lo em alguma calçada, entregue, beijando um cara enigmático. Encontrá-lo em uma esquina, disputado por meia dúzia de homens e mulheres.

Noites passadas... Há quinze, vinte ou trinta dias atrás? Parecia tão dolorido e cansado... Efeitos do álcool, drogas? Era tudo o que me enojava e me atraía. Era tarde e estava voltando para casa. Roubei o cigarro de sua mão enquanto ele fumava na esquina, totalmente alheio ao mundo. Um completo desconhecido e eu, uma completa maluca. Seguiu-me e, pela primeira vez, não temi um desconhecido; alcançou-me em poucos segundos. Perguntou meu nome. Respondi. Perguntei seu nome, ele disse: "Batiza-me!" Chamei-o de Narciso. Deixei que ele me levasse. Apartamento de dois cômodos na pior área da cidade, incrivelmente, era cheio de livros e pinturas. Cheio de bebidas e cigarros. Deu-me apenas um gole de vinho na mesma taça que ele bebia, a única taça que possuía. Eu, moça bem vestida, acostumada ao conforto que meu salário médio me proporcionava. Eu, ali, na pior parte da cidade, com um desconhecido.

Não fomos além do que poderíamos. Não fizemos mais do que os nossos instintos de animais puderam. Pura primitividade. Apenas instinto, primitividade, irracionalidade, barulho, atração, entrega, sorrisos de quem não é feliz. Necessidade de ser de alguém que não é. Dias depois, só a praça me restava.

22 de ago. de 2013

Um verde desejo de ser fruto

Como amadurecer? Apenas ser fruto verde, parado, nascido na árvore sem saber? Seria bom apenas parar e deixar o tempo ser. Eu deixaria de ser verde sem nada fazer. Assim como os frutos, nasci sem nada saber. Como posso crescer se o tempo nada faz por mim? Apenas ser: verde, parada, sentindo a força do vento.

Como vou convencer o tempo a ir mais devagar? Como posso explicar que sou humana? Como terei calma para dizer que não sou fruto nascido em árvore, que não sou escultura feita no mármore?

E durante o banho encosto-me na parede fria; parede branca e limpa assim como Deus. Fico procurando raízes que me transformem em árvore. Por quê? Deus, por que não me fizeste  forte, firme e eterna? Tenho olhos da cor da terra, dedos que desejam encontrar o solo e ali germinar. Sou o projeto inacabado, que mudou seu rumo por si só. Agora arrependo-me. Não consigo crescer com esperança. Eu sei que hoje poderia ser fruto verde na copa de uma árvore, apenas deixando-me ser. Não sei o que fazer da minha vida humana. Peço que acabe logo o meu castigo e deixe-me voltar.

E no fim de tarde, corri pelo campo mais verde e desabitado.

18 de jul. de 2013

Depois do campo de batalha


Há muito tempo fui enganado. Eu era criança, meu pai me enganou e manipulou minha mente tão pura e inocente. Eu era um menino sensível, que gostava de todos os pequenos prazeres da infância, das comidas de minha avó; era também muito inteligente, escrevia pequenos poemas aos oito anos. Fui muito feliz quando criança, morando na capital de uma grande cidade e passando as férias no interior. Era tudo normal, eu poderia ter seguido qualquer profissão. Um bancário, músico, escritor, jornalista ou vendedor. Ah, como eu tenho vontade de zombar da minha inocência. Mas não posso culpar meu pai. A sociedade é igualmente culpada. Nós fomos inocentes. Agora sou um velho traumatizado, ferido, com um coração quase petrificado. Essas são as consequências de uma guerra.

Meus dezoito anos! Meu pai disse que seria um marco, um triunfo na minha vida! Nunca me apaixonei, não seria mais um daqueles soldados que vão servir o Exército e deixam partido o coração de uma moça. No meu quarto, apenas fotos de soldados, todos organizados e perfeitamente vestidos. Pareciam até com bonecos, de tão grande perfeição que demonstravam. Nunca soube ler as entrelinhas, eu seria como um daqueles em poucos meses. Em breve enfrentaria outros soldados, meu superior o nomearia como inimigo, só me restaria matá-lo. Era simples, era igual aos jogos de tiro que ganhei de aniversário.

Treinamentos, suor, determinação, força, estratégia. Zombaria, preconceito, ódio, frieza, manipulação, emboscadas, crucificação. Coragem, método, pontaria. Falta de sentimentos, de alma, de sensibilidade. Poeira, lama, suor, sangue, ferimentos, frio, gritos, tiros, morte.

Guerras estouravam por todos os lados. Todos os que eu julgava como pessoas boas eram demônios. Todos os velhinhos sorridentes e aparentemente ingênuos eram demônios. Demônios frios e calculistas surgiam de todos os lugares. Foi aterrorizante descobrir quem realmente eram os poderosos em quem o povo confiava. Foi aterrorizante descobrir todo o lamaçal que é o mundo. Na guerra eu fui ferido, vi meus amigos ficarem com sequelas eternas, vi amigos morrerem. Matei muitos, matei amigos de outros soldados. Mas eram inimigos, todos eram malditos imundos que eu deveria exterminar. Toda a perfeição dos soldados só morava em fotos. Era uma terra de loucos. Senti-me soldado do próprio Hitler, acho que todos nós éramos soldados dele. Tínhamos a mesma crueldade. Eu fazia as mesmas coisas de que me horrorizava. Fui apenas mais um bonequinho de chumbo das cópias de Hitler. Não vi beleza nenhuma nos campos de batalha. Voltei quase louco, traumatizado. Nunca conheci o amor, depois de tudo o que fiz e vi acontecer, desisti de ter sentimentos. Casei-me por obrigação, afinal, sempre fui brinquedo de meu pai. Nunca amei minha esposa, tive apenas um pequeno afeto pelos meus filhos, o mesmo que tenho pelos meus netos. Meus netos também inocentes, admiram as medalhas que ganhei. Só imagino o quão horrorizados eles ficarão ao saber que ao invés de um herói sem uma perna, sou um assassino. Um assassino que, após receber um uniforme calculadamente costurado, tem carta branca para matar.


15 de jul. de 2013

Papai comprou uma máquina de matar


Que bonito, papai comprou um carro. Ele é todo coberto de couro por dentro e tem uma buzina muito chata. Já que sou menino muito pequeno, não sei bem o que ele faz. O tal carro é algo que muitos desejam e nem todos podem ter. Ontem eu vi um menino como eu, com os pais, em um carrinho feito com geladeiras velhas. Os pais pareciam cansados e o menino muito triste. Todos eles estavam sujos. Eu sou um menino branco que toma banho várias e várias vezes por dia. E aquele menino não tem essa oportunidade. Eu perguntei ao meu pai por que eles sofriam tanto, ele não soube responder. Mas algo me diz que ele sabia, só não quis me dizer.

Na semana passada vi um acidente em uma avenida. Muitos meninos corriam alegres na direção da câmera que tudo filmava. Riam e faziam sinais que eu não consegui entender. Eu caminhava com a minha mãe e a perguntei sobre o porquê de tanta alegria. Ela me disse que aqueles meninos pulavam de alegria porque eles iriam passar na televisão. Continuei sem entender. Tinha uma moça esticada no chão, com muito sangue saindo da cabeça. Só não vi mais coisas porque minha mãe disse que eu não poderia ver aquilo. Muitos diziam que ela estava morta, só que eu não sabia muito bem o que significava estar morto. Na escolinha me disseram que é quando uma pessoa passa a morar nas estrelas e nunca mais vemos quem morreu. Achei muito triste toda aquela alegria estranha. A moça que foi morar nas estrelas é uma desconhecida para mim, mas eu não gostaria que meus pais fossem morar nas estrelas. Acho que aquela moça também deveria ter um pai e uma mãe, assim como eu. E foi um carro parecido com o do meu pai que fez todo aquele estrago.

Depois de ver vários acidentes acontecendo, fiquei com medo. A televisão só mostra meninos rindo ao redor de uma pessoa que está ali, mas que já está morando nas estrelas. A pessoa esticada no chão desaparecerá para sempre. E eram sempre os carros que matavam aquelas pessoas. Meu pai disse que teria cuidado, que nunca machucaria ninguém. Como meu pai é um pai melhor que todos os outros pais eu fiquei despreocupado.

Um dia precisei ir ao hospital onde tia Carmem trabalha, papai foi deixá-la, já que ela não chegaria no horário se fosse de ônibus. Ela é uma enfermeira muito competente, foi o que mamãe me contou. Sem querer, tia Carmem esqueceu a carteira dentro do carro e papai pediu para que eu corresse para devolver a carteira. Corri bem rápido e consegui alcançar tia Carmem, que já estava dentro da recepção. Fiquei muito assustado quando vi várias pessoas sentadas e deitadas no chão, todas gemiam de dor. Alguns pediram a ajuda da minha tia, mas ela disse que nada poderia fazer, todas as vagas estavam ocupadas. Voltei para o carro e nada perguntei ao meu pai, ele não gosta de responder algumas das perguntas que faço.

Sem querer, ouvi meus pais conversando numa tarde de domingo. Papai parecia preocupado. Ele disse que gastaria muito com o conserto do carro, logo de um carro tão novo. E ainda perderia alguns pontos na carteira. E a família do menino ainda iria querer dinheiro para pagar os médicos. O que mais o preocupava era o estrago feito no seu carro tão novo, tão atual. Só depois entendi que papai quase matou um menino, o atropelou enquanto ele brincava na rua.

Fiquei decepcionado, papai me disse que jamais machucaria alguém. O que mais me doeu foi que ele não se preocupava com o menino, só com o carro. O carro tão novo, tão bonito, tão azul. Papai comprou uma máquina de ferir, uma máquina de matar. E agora, ao ver os dois que eram tão bonitos, só consigo entristecer. Agora, mamãe e eu estamos tristes por causa de tudo que acontece. Papai só consegue se preocupar com o carro.


21 de abr. de 2013

Pensei que fosse encantamento

Os últimos meses pareciam um passado distante, do qual só resta um vazio. Você parecia esquecido, guardado nas sombras dos últimos vinte dias. Até a chuva estava mais melancólica. Cada gota de chuva era um pranto, cada tropeço um abismo.

Ainda choro por você, pelos movimentos que sua camisa fazia enquanto você respirava. Choro pelas suas sobrancelhas desgrenhadas e manias idiotas, pela vontade que eu tinha de fotografar nossas mãos enquanto estavam juntas. Choro pela minha aura que transformava-se em algo bonito de se ver. E contrariando seus pensamentos: isso não é amor. Só um puro encantamento, que a realidade fez questão de destruir.

Seus arrependimentos, dúvidas e vontades. Fugas. Você correndo para algum lugar distante, fora das minhas lembranças. Você e esse jeito indomável de ser. Só um puro encantamento, isso que sinto. Minha ingenuidade que nem deveria existir. A vida dará um jeito de acabar com os meus sentimentos. Não existirá mais amor, só meu doce encantamento.

Era amor quando nos encontramos por acaso em uma loja qualquer. Transformou-se em encantamento quando você saiu em disparada naquela bicicleta, pensando em qualquer coisa em que eu não estivesse presente. Foi amor nos nossos sorrisos sinceros, com a sinceridade de quem nada sabe e nada viveu; amor no nosso abraço. Encantamento quando seus olhos tomaram outra direção e pouco importaram-se comigo. Foi dor no seu adeus tão distante, como se eu fosse alguém que você visse todos os dias. Foi um turbilhão. Você era o "algo" que me faltava naquela tarde de sábado.Foi ontem, mas parecem anos.Nunca mais entrarei naquela loja sem lembrar de tudo o que aconteceu. O tudo que não durou nem quinze minutos.

Mas é amor, sim. Eu que me engano, disfarço. Descobri que era amor naquele sábado, quando eu jurava que havia te esquecido. Eu que te engano, disfarço. Puro capricho. Choro pelo vazio, por tudo que mudei, por todas as marcas e pelo vento frio que você deixou soprando. É amor, daqueles puros, que misturam-se ao encantamento. Eu que sou do contra e tento negar o que sinto. Olho com carinho pra cada pedacinho da minha casa em que você pisou. Só lembro do que não deveria, eu sei. É amor, só não te quero do meu lado. Já quis, mas você me magoou e enlouqueceu tanto que não dá mais. Será amor enquanto eu não te esquecer. É muita ambiguidade para uma pessoa só, mas só te resta aceitar.

Haverá meu encantamento por ti enquanto eu respirar.

10 de mar. de 2013

Sobre uma música que joga o passado no presente

Eu sei muito bem o que você sentiu quando ouviu aquela música tocando, sei em quem pensou, sei quase tudo... Acredite, também tive vontade de chorar, tive vontade de desabar ali mesmo. E deixar que aquela droga de música depressiva entrasse nos meus poros como um vírus que infecta o sangue. Mas não, permaneci ali, forte. Forte por fora, só por fora. Não sei se você percebeu, mas eu enxuguei suas lágrimas, enxuguei várias e várias vezes o teu rosto. Enxuguei as lágrimas que não haviam caído, que não caíram na minha frente. Foi duro, eu tive muito medo naquela hora, foram os piores três minutos da minha vida. Só não foi pior por que você continuava ali, mesmo que a mente viajasse pelos mundos mais obscuros do teu passado. Sabe, eu só tenho medo do seu medo. Mas depois, outras músicas tocaram e o medo se dissipou, pelo menos aparentemente. E você voltou ao seu normal, o rosto procurando o meu, as mãos se entrelaçando mais uma vez, os olhos fechados como manda o figurino. Eu sei, não é fácil ser uma Ana Clara, assim como não é fácil ser um Maximiliano.

9 de mar. de 2013

Quando o passado deixa de fazer falta...


Hoje passei em frente a tua casa, quer dizer, do condomínio onde você mora. Passei apressada, e olhei pra lá, só pra não perder o costume. E lá estava você na janela, fumando um cigarro e soprando a fumaça para o infinito. Você me viu, como sempre via. Sorriu. E eu não sorri de volta. Não preciso mais do seu sorriso, por mais estranho que pareça. Não preciso mais da sua presença, da sua voz, nem das suas risadas musicais.

Mas já precisei um dia, se você quer saber. Já quis ser uma segunda pessoa naquela janela. Sentindo o cheiro detestável do teu cigarro, mas te admirando mesmo assim. Te ouvindo falar do gosto de todas as bebidas que você já não bebe mais. Ouvindo tuas idiotices, sentindo os músculos dos teus braços. Braços que eu desejei contornar com as pontas dos meus dedos. Desejei, desejei muito. Já quis me encontrar nos teus olhos, me perder do teu lado. Já quis ser tantas, me transformar em outra pra você. Mas agora não quero nada disso, faz parte de um passado distante. E é até bonito de se lembrar.

Hoje eu sou só uma menina que desceu apressada do ônibus com vários livros, como sempre. Tenho uma vida que começou há quase quinze anos e não sei como vai parar. Mas um dia vou acabar, tudo - ou quase tudo - acaba. É o ciclo, é a vida. Sou cheia demais pra ter pessoas vazias ao meu lado. Quero alguém que me acrescente, que me faça transbordar; e também quero alguém que tire algo de mim, que me traga um pouco de leveza vez ou outra. Ou um pouco de vazio. E já encontrei esse alguém. Tão incerto como os números jogados na loteria, a possibilidade de ganhar é a mesma de um raio atingir minha cabeça. Mas os matemáticos não sabem que raios atingem minha cabeça quase que diariamente. Bando de loucos.

E você? Bem, você continua lá na janela fumando e soprando fumaça pro infinito, com aquelas dezenas de dentes perfeitos. Isso é algo que eu não posso negar, seus dentes são perfeitos, mas deixa pra lá. Já não importa mais.

E o alguém? Bem, eu posso abrir um sorriso largo e dizer: "Eu não faço a mínima ideia do que irá acontecer, só sei que estou feliz. E que seja para sempre, mesmo que acabe."

A vida continua
Fica tão pesada
A roda corrompe a borboleta
Cada lágrima, uma cachoeira
Na noite
Na noite de tempestade
Ela fechou os olhos
Na noite
Na noite de tempestade
Ela voou para longe
E sonhou com o para-para-paraíso
- Paradise, Coldplay.

3 de mar. de 2013

Sobre os dias em que fui uma Clarissa


Dia desses fui Clarissa, agarrada ao travesseiro, cravando as unhas nas mãos. Dia desses estava na janela, tentando ver as estrelas mais distantes; quase não as vi, as estrelas mais brilhantes haviam ficado pra trás. Eu era depressão no meio da felicidade, me sentia um fardo para todos, algo que deveria ser excluído. Pensei nas facas, nos remédios guardados bem ali.

Fui Clarissa me jogando na cama, abafando o choro. Despedaçada como sempre,como todos iriam fazer. Despedaçada por todos e por si mesma. Que culpa tinha ela de ser tão cheia dessa alma cheia de palavras? Que culpa tinha ela de não saber cuidar de si mesma, de não conseguir fugir? É nessas horas que o teto parece infinito, infinito na sua inutilidade.

E ali estava ela, mais uma vez, chorando por uma pessoa insensível.Com um vestido solto, fino, tão branco quanto sua alma. Uma alma pura que já havia experimentado toda a maldade do mundo. Se alguém a observasse do teto, enxergaria a coisa mais bela do mundo: um corpo magro jogado em uma cama bagunçada; um corpo tão branco quanto as nuvens; com uns olhos perfurantes, fixos, um olhar quase mortal, quase morto. Mas Clarissa era linda, mesmo que o choro fizesse dos seus olhos um espelho, olhos que agora são marrons. Os cabelos em desalinho, a fraqueza do corpo machucado demais.

Mas Clarissa possui uma força estranha, quase sobrenatural. Ela ficará jogada na cama, distante de todos, até que tudo passe. Nenhuma dor é eterna. Nada é eterno. Exceto o par de olhos verdes que fitavam tudo. E fitavam nada.

Clarissa e seus olhos, que vocês existam por toda a eternidade.
{ Texto inspirado na Clarissa, essa menina impossível de se traduzir em um só texto. }

21 de dez. de 2012

Imortal

Eu via o que ninguém conseguia enxergar. Eu via o navio, antes mesmo de ele surgir no horizonte; via as tempestades e os raios que o atingiam. Eu era possuído, possuído pelo meu dom. Dom que julgavam demoníaco. Meu dom e de mais ninguém. Possuidor da minha alma, o dom era a minha alma.

Eu era apenas um filho de pais ricos, alguém que deveria ser mimado e egoísta. Mas não, eu nunca fui assim. Sempre fui diferente, acanhado; até que descobri o que me tornava diferente. Vez ou outra uma angústia me possuía, eu sentia frio, falta, vazio. Eu era atingido pela distância.

Aos dez anos fui conhecer o mar. Era paradisíaco, mas também era incômodo ver tanta gente. Gente que eu consegui apagar com a chegada de um outro sentimento. Em algum lugar daquelas águas ele surgia. Surgia, majestoso e lento. Minha alma se aproximava antes de todos.

Senti-me na época de guerras nórdicas; povos primitivos; indígenas nus e com uma língua incompreensível. Vi o mar sem água, transformei o mar em deserto. Senti-me em uma montanha, vendo de longe os aglomerados de algas, as ondas quebrando e voltando para onde vieram. Vi os pescadores distantes. Vi tudo o que estava longe. Notei que tudo inexistia.

Eu estava hipnotizado por um navio que ainda não havia surgido. Ele trazia minha alma e deveria voltar com eles: minha alma e o navio. Fiquei maravilhado ao avistar o navio; eu deveria agir. Era uma oportunidade única. Ele jamais viria entregar o que eu queria em minhas mãos. Corri e nadei. Entrei no mar infinito, entrei no caminho que deveria seguir. Mergulhei o quanto pude, o ar não importava. Era como um peixe, um peixe que saía da terra firme rumo ao mar.

Notei que o navio era apenas um instrumento, foi o navio que me fez ir mergulhar. Encontrei minha alma entre as algas. Meu espírito entre os peixes. Imortal. Ícaro voou alto demais; eu fiz o contrário. Afundei nas profundezas do paraíso. Paraíso onde permaneci por apenas meia hora, até que eu não conseguisse respirar. Morri com minha alma, renasci. Sempre fui imortal.

11 de dez. de 2012

Clarisse


Aos três anos, Clarisse foi violentada, não foi um estupro, mas teve o mesmo valor. A violência foi prolongada, arrastou-se por muitos anos. E esses anos fizeram com que ela compreendesse o que acontecia, e a deixaram culpada por ter passado por tudo o que passou. Foram lágrimas e mais lágrimas derramadas por uma culpa inexistente, um pecado que ela não havia cometido; mas que o carregaria para o resto da vida.

Será que ele era culpado por tudo o que aconteceu? Era uma pergunta constante, que ela respondia com um “sim” e um “não”, sem chegar ao real objetivo da pergunta. Talvez ele possuísse uma parcela de culpa, já que ele tinha plena consciência de seus atos. Mas ela não poderia culpá-lo, acusá-lo, muito menos odiá-lo. Ele era uma luz, presente em todos os dias da vida dela. Sim, uma luz.

Clarisse pensou – quando ficou mais velha – em beber, usar algum tipo de droga que a deixasse esquecer tudo, pensou em matar-se. Aliás, a morte a acompanhava desde a sua concepção, até que chegasse o dia que as duas se encontrariam. Clarisse e a Morte. Ela morria todos os dias, como todos nós morremos. Só que com ela era diferente, ela conseguia sentir a Vida junto com a Morte; duas companheiras inseparáveis, duas ações necessárias. Clarisse carregou dentro de si um amor pelo mundo, um amor para as pessoas que o mereciam e nunca o abandonou. Ela não usou drogas, nem teve covardia o bastante para se destruir.

Clarisse conseguiu ter a maturidade necessária para superar, uma alma formada para entender e um coração magoado que ela deveria regenerar. Ela possuía uns olhos castanhos profundos, que ninguém jamais interpretou de forma correta; olhos aparentemente felizes, mas por dentro, eram olhos magoados, doloridos por causa das lágrimas carregadas de facas.

Clarisse decidiu voar, e deixou que a chamassem de louca, e que depois a internassem em um hospital psiquiátrico. Não se importaria, voou dentro de si. Ela amou seu corpo imperfeito, suas mãos que já haviam passado por tanto. E seus olhos. Seus olhos que já haviam visto demais, presenciado o que não deveriam, chorado como ninguém. Ela decidiu que amaria alguém, seja lá quem fosse, mas amaria. Clarisse amou um homem de olhos castanhos, quase translúcidos. Ela o amou em segredo, nunca falou sobre, nunca deixou escapar. Ela queria alguém com que pudesse contar e confiar, lembrou-se de si mesma. Lembrou que ela, apenas ela conseguia entender a própria dor, os próprios fatos.

E compreendeu-se. O fato da infância não a acabou, ao contrário, transformou-a no mais encantador dos seres.

Datas, folhas arrancadas de um calendário qualquer. A mais idiota contagem dos dias. Olheiras foram provocadas pelo vício de ler, a melhor droga que já foi encontrada. Unhas afiadas, prontas para uma situação que necessitasse de uma arma cortante. Uma língua afiada de palavras cortantes; mas Clarisse era e ainda é a mulher mais doce que conheci. Ela só não se mostrava, não entregava os pontos, não se deixava levar. Clarisse não me entregou os pontos. Clarisse não me deixou vasculhar a alma dela, não me permitiu que a interpretasse de imediato. Queria deixá-la nua em frente ao espelho e dizer-lhe o quanto era linda. Ela era livre e não corava por qualquer coisa. Sabia que um elogio era um elogio. E ela não limitava-se com sorrisos, argumentava comigo e perguntava o por quê de tal elogio. Clarisse nunca foi simples, era a pessoa mais difícil de se conviver. Ela foi feita para estar só. Sozinha, porém, desejava os abraços de alguém que ela não conhecia, que ela ainda não havia encontrado. O alguém era eu, eu sempre soube. E o alguém também era ela. A Clarisse normal que havia ficado nos espaços entre as estrelas. Ela perdeu a Clarisse simples, vazia, de problemas normais, patricinha e mimada. Clarisse era uma mulher aos 15 anos.

Clarisse nunca morrerá, permanecerá dentro dela e dentro de mim. Clarisse foi minha mulher, minha amiga, meu irmão, meu tio, meu avó. Ela poderia ser o que quisesse. Clarisse parou de respirar aos 75 anos, ao lado da nossa filha e dos nossos netos. As crianças mais inteligentes que ela conseguiu “projetar”. Clarisse ainda está aqui e ainda sou um rapaz idiota que ela fez homem. Ela ainda está olhando além do mar e ainda continuo querendo entendê-la. Era um trauma, cheia de cicatrizes e ela sempre falava: “Deixe-me com minhas cicatrizes, preciso delas.” E ela realmente precisava, ela queria lembrar de tudo o que já havia acontecido; sem mágoas, só com um sorriso de saudade da menina que tinha medo do futuro. Ela amava a mulher que havia se tornado. Clarisse nunca me falou nada, deixou tudo escrito. Disse que eu só deveria ler depois que ela morresse, caso eu desobedecesse, ela me mataria de qualquer forma, tenho quase certeza disso. E eu li tudo, assim que ela falou: “Terei que te deixar.” Mas ela não morreu, eu sei que não; ainda ouço seus passos, ainda amo o cheiro daqueles livros. Ainda sinto a quente respiração de Clarisse ao pé do meu ouvido.

11 de nov. de 2012

O guardião de anjos

Ele foi um guardião de anjos em tempos passados, hoje não passa de um simples mortal. Era aquele que orientava os anjos, aconselhando-os e afagando os humanos, mesmo sendo invisível. Ele notava todas as lágrimas, antes mesmo que elas brotassem. Porém, o cargo perfeito não foi eterno. O seu maior desejo foi atendido, o desejo ser um humano como todos os que ele observava sofrer.

Mas em sua vida terrena, perdeu-se em seus conceitos e crenças. Nada havia restado daquele seu instinto de guardião. Ele tropeçou nos próprios pés e destruiu todos os seus sonhos terrenos. Deixou-se guiar por aquele que ele mais detestava e acreditou que tudo estava acabado.

Ele ansiava um recomeço, procurava sempre um luz acesa no fim do túnel. Uma luz que não existia, ou nunca estava acesa. Estava desesperado desde que se entendia por gente. Sempre estava com um maldito nó na garganta, sempre estava prestes a desabar. Era como uma construção imperfeita, onde os tijolos foram colocados de qualquer jeito, onde o cimento era como lama. A cada vez que a lua surgia, a cada vez que a primeira estrela brilhava no céu, ele se perguntava como poderia ser tão sujo e imperfeito.

Mal sabia ele que havia sido um guardião de anjos.

Ele encontrou no próprio reflexo toda a imperfeição do mundo. Encontrou em si mesmo todo o sofrimento. Porém, ele enxergava aquilo que não era, aquilo que nunca foi. A cada nova estrela que surgia um pedido era feito. Ele pedia para encontrar-se antes de enlouquecer. E depois de uma noite cheia de lágrimas, ele conseguiu sonhar. Sonhou com anjos, milhares de anjos, e um deles tinha o seu rosto. Depois do sonho, ele decidiu procurar sua verdadeira identidade.

Ele havia aparecido em um orfanato, foi deixado no jardim. Não existia nenhum vestígio de seus pais. Nunca possuiu nenhum documento onde constasse o nome de seus pais. Era um enigma. Então, ele decidiu colocar sua foto em um jornal. Só que para isso ele teve que olhar-se em um espelho para descrever suas características. Foi a primeira vez que ele encarou o espelho. E era lindíssimo, magro, rosto largo e perfeitamente desenhado. Seu cabelo era um tom quase preto de castanho e tinha uns olhos dourados. Sim, dourados e demasiadamente brilhantes. Até que ele decidiu procurar por um sinal, uma cicatriz, algo que facilitasse sua descrição. E não havia nada que marcasse sua pele branca. Até que ele lembrou de suas costas. E se surpreendeu ao ver duas imensas cicatrizes diagonais que começavam um pouco abaixo de sua nuca. Eram lindamente sobrenaturais. Depois disso, ele fez um pequeno corte no pulso para ver o próprio sangue. E com isso, uma nova surpresa aconteceu: o sangue que jorrava de suas veias era tão dourado quanto seus olhos, e exalava um perfume inexplicável.

Essa foi a única vez que ele sentiu-se perfeito. O corte não estancou, pelo contrário, abriu-se cada vez mais rasgando sua pele. Só aí ele entendeu que não se encaixava nesse mundo pelo fato de ter sido um anjo guardião. O pulso cortado tirou-lhe a vida, mas não trouxe a morte. Ele apenas sentou-se no chão e esperou que o sangue parasse de jorrar. Mas, o sangue não parou de jorrar e sua visão clareava cada vez mais. Era a tal luz no fim do túnel. Seu corpo foi apagando, até que desapareceu por completo. Ele não morreu, só retornou ao paraíso. Até depois, Olhos Dourados.

3 de nov. de 2012

Sobras

Não há nada de revelante para dizer, ou melhor, eu não quero é transbordar porcarias por aqui. Passei dois dias limpando poeira e jogando uma parte da minha infância mofada no lixo. Sim, no lixo. E eu a jogaria outra vez, sem arrependimento algum. Se eu pudesse, teria queimado tudo aquilo. Como eu queria ter pulado algumas partes da fase que dizem que é a melhor da vida de um ser humano. Como eu queria mudar meu passado, pelo menos apagar parte dele.
Vamos lá, julguem-me! Eu gosto de ser julgada, só para rir da cara dos meus acusadores. Eu gosto de ser assim. Porém, eu não gosto do que eu fui. Mas, dizem que nada acontece por acaso. E eu (feliz ou infelizmente) acredito nisso. Acredito em tantas coisas, e ao mesmo tempo, duvido de tudo. Novamente, julguem-me.
Para acreditar que não sou a única, tive de encontrar o meu espelho. Encontrei-o, e ele é tão embaçado quanto eu. Tão duvidoso e negativo quanto eu. Encontrei-o em mim mesma, para depois procurá-lo pelo mundo. Até que eu achei o fracassado que se diz feliz. Minha alma foi moldada com as sobras da alma dele. Só pode, porque eu nunca encontrei duas pessoas tão sofridas, tão imundas e tão limpas por dentro. Porcaria de produção de almas. Eu ainda tive vontade de me mandar para assistência técnica, mas, almas não podem ser consertadas.