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30 de mar. de 2014

I.
com voracidade
queria-me
dizia-me
"meu amor"
com a fome
de quem deseja
com a sede
de quem
se entrega

II.
com voracidade
beijava-me
com os olhos
olhava-me
com os lábios
o desejo
de quem tem
e não pode ter
não como quer

III.
com voracidade
tinha meu corpo
com o cuidado
de delinquente
tínhamos
a vontade
insaciável e
incurável
do não-ter

15 de mar. de 2014

Poema que era carta

Enquanto a chuva surge, eu não desespero.
Enquanto o coração ruge, eu não desespero.
A saudade existe, assim eu te espero.
A saudade é forte, mas ainda assim
Quebram meu coração.

Cansei dessa busca em lugares impossíveis.
Cansei de esperar flores de um terreno hostil.
Cansei de seguir sempre a mesma linha.
Não quero ser um exemplo.
Queria - e quero - respeito, nada mais.

Ainda almejo a liberdade.
Almejo a serenidade de estar ao teu lado.
Desejo poemas sem rimas.
Pensamentos desconexos.
E teus olhos perdidos nos meus.

14 de mar. de 2014

Retorno

Choro dolorido que me contrai
Barulho de chuva que me distrai
Peso do choro que cai

À tarde vejo pedras vazias
Iluminação perfeita
Sensações tardias

Sou eu, sozinha
Sozinha

Em outra linha.

4 de mar. de 2014

Segredo

Eu derreto
Me comprometo

E no caos
De paz
Me resta você.

3 de mar. de 2014

Avenida

O calçamento desmedido
Pelos olhos sofridos
Sorrisos contidos
Dias tingidos

Sempre os mesmos risos
Todos imprecisos
Buscando outros sorrisos
Igualmente imprecisos

Ainda há o sol
Entre braços vestidos
Sapatos indecisos
E falsos sorrisos

Palpitar

Apesar da vida
Da corrida
Da falta que faz
Um prato de comida

Há sempre a partida
Súbita
Aflita
Descrita

Feito impulso
Que faz poema
E não faz páginas

Noivado

Chora baixinho.
Assim como a chuva.
Teu rosto, essa curva.
A dor,
É sempre dor.

Amor,
é sempre o mesmo.
Com exceção
do nosso caso.
Que não é só caso.
Descaso.

Mas caso,
Se você disser
Que me ama.

Trégua

Vida crua
Plena rua
Solitária lua
Mão sua
Flutua
Construa
Reconstrua
Continua
Conclua
Sou tua

2 de mar. de 2014

Inquietação

O que fazes nessas tardes?
Assim, amenas.
Assim, tristes.
O que fazes enquanto eu olho?
O que fazes enquanto eu pareço ser normal?
O que fazes enquanto choro?

O que faço eu enquanto não estou contigo?
Procrastino meu desatino.
Planejo meu destino.
O que faço enquanto te quero sem te ter?
O que faço enquanto nem consigo ler?
O que faço?
O que faço?

Fosfeno

E te amava em pensamento
Em cada movimento
Te amava sem medo
Falando coisas banais
Sorrindo como alguém que
De tanto acreditar no impossível
Consegue vê-lo realizado

E amava sem saber escrever
Fazendo de versos simples
Algo difícil de entender

Assim eu te amava
Naquelas tardes anoitecidas
Com horas contadas
Palavras sussurradas
E coisas não ditas

Amava
No transbordar da alma
Na vontade de não soltar tua mão
No bater mais forte do coração

Te amava sem saber expressar
Coisa que ainda não sei.

Espelho

E tão desabituada
Ao meu sorriso estava
Que o estranhei.
Fui alheia:
Ao meu reflexo,
Sombra,
Contato.
Alheia
Ao eu
Abafado
Maquiado
Conforme
O ambiente.

Telefonema

O telefone toca.
A vida toca.
Ora para os lados,
Ora para a toca.

A música toca.
O ouvido reconhece o toque.
Permaneço na toca:
Não atendo.

Desassossego

Não dormir
Apenas ver
Nuvens muito brancas
Em um céu muito escuro

Não dormir
Apenas sentir
O coração apertar
Sufocar dentro do peito

Não dormir
Apenas ser
O medo de não conseguir
O medo de desistir

Não dormir
Apenas o não
Do nada vir
Para o nada voltar.

26 de fev. de 2014

Passos

Folha seca sob o sol
Olhos apertados
Alma dolorida

Sorrisos se perderam
E aquela casa vazia
(Embora esteja cheia de gente)
Merece um poema

Canto, por enquanto
Depois
A garganta inflama
A vida se derrama
O caminho continua

Meus pés ardem
As costas doem
A cabeça lateja
Os olhos umedecem

Minha alma partida
Minha doce alma
Perdoa a falta de rumo.

24 de fev. de 2014

Rimas sobre a realidade

A alma cresce
enquanto o vento corre.

A roupa veste
enquanto a alma escorre.

A roupa esquece
enquanto o corpo dorme.

A alma adormece
enquanto o corpo sofre.

A mente enlouquece
enquanto a sanidade morre.

A rotina permanece
enquanto a cidade dorme.

21 de fev. de 2014

Óculos

Pelas lentes verdes
Enxergava o mundo
E ria, fingia
Pelas lentes me perdia
Pequeno mundo confuso
De chuvas e cansaços
De poemas abstratos
De pequenas partes do colapso.

9 de fev. de 2014

Golpe

Viver dói.
Eu sou dor.
Silêncio.
Fuga.
Indiferença.
Medo.
Silêncio.
Insuficiência.

Acreditei que viver não doía
Por puro capricho.
Vivo
Por pura teimosia.

20 de jan. de 2014

Rima

Tão longe, tão perto
Me desperto
Concreto
Repleto
Da minha saudade

Te acerto
Me conserto
Concreto
Repleto
Da minha inutilidade

Dia incerto
Me completo
Concreto
Repleto
Da nossa serendipidade.

7 de jan. de 2014

Quinze

O meu eu é vazio quando não estás.
Dou dois passos e olho se você não vem atrás.
A saudade dos teus beijos é a mais mordaz.
Me sinto vazia no vazio do cais.

Mesmo sozinha estando.
E assim sozinha te amando.
Dos deuses permaneço duvidando.

Sabe, é você quem vivo procurando.
Tua voz que ouço falando.
Da minha sanidade continuo duvidando.

Saudades.

24 de dez. de 2013

Deixando-me

Deixei ficar
Feito chama escondida
Feito ferida quase cicatrizada
Num caos de acontecimentos

Deixei sorrir
Com um jeito doce de ser
De vários disfarces
E impasses

Deixei viver
Gravando nas paredes
O impossível de crer
O impossível de descrer

Deixei fluir
Entreguei os sentimentos
Nas tardes amenas
Nas curvas do meu corpo

Deixei amar
Mesmo com amanhãs
E palavras vãs
E outros afãs

Deixei morrer
Inseguranças
Terceiras cobranças
E falsas pujanças

Deixei estar
Todos os fatos
Todos os desejos
Em todas as curvas

Deixei lembrar
Das heranças
Das canções
E outras segundas intenções.