15 de jul de 2013

Papai comprou uma máquina de matar


Que bonito, papai comprou um carro. Ele é todo coberto de couro por dentro e tem uma buzina muito chata. Já que sou menino muito pequeno, não sei bem o que ele faz. O tal carro é algo que muitos desejam e nem todos podem ter. Ontem eu vi um menino como eu, com os pais, em um carrinho feito com geladeiras velhas. Os pais pareciam cansados e o menino muito triste. Todos eles estavam sujos. Eu sou um menino branco que toma banho várias e várias vezes por dia. E aquele menino não tem essa oportunidade. Eu perguntei ao meu pai por que eles sofriam tanto, ele não soube responder. Mas algo me diz que ele sabia, só não quis me dizer.

Na semana passada vi um acidente em uma avenida. Muitos meninos corriam alegres na direção da câmera que tudo filmava. Riam e faziam sinais que eu não consegui entender. Eu caminhava com a minha mãe e a perguntei sobre o porquê de tanta alegria. Ela me disse que aqueles meninos pulavam de alegria porque eles iriam passar na televisão. Continuei sem entender. Tinha uma moça esticada no chão, com muito sangue saindo da cabeça. Só não vi mais coisas porque minha mãe disse que eu não poderia ver aquilo. Muitos diziam que ela estava morta, só que eu não sabia muito bem o que significava estar morto. Na escolinha me disseram que é quando uma pessoa passa a morar nas estrelas e nunca mais vemos quem morreu. Achei muito triste toda aquela alegria estranha. A moça que foi morar nas estrelas é uma desconhecida para mim, mas eu não gostaria que meus pais fossem morar nas estrelas. Acho que aquela moça também deveria ter um pai e uma mãe, assim como eu. E foi um carro parecido com o do meu pai que fez todo aquele estrago.

Depois de ver vários acidentes acontecendo, fiquei com medo. A televisão só mostra meninos rindo ao redor de uma pessoa que está ali, mas que já está morando nas estrelas. A pessoa esticada no chão desaparecerá para sempre. E eram sempre os carros que matavam aquelas pessoas. Meu pai disse que teria cuidado, que nunca machucaria ninguém. Como meu pai é um pai melhor que todos os outros pais eu fiquei despreocupado.

Um dia precisei ir ao hospital onde tia Carmem trabalha, papai foi deixá-la, já que ela não chegaria no horário se fosse de ônibus. Ela é uma enfermeira muito competente, foi o que mamãe me contou. Sem querer, tia Carmem esqueceu a carteira dentro do carro e papai pediu para que eu corresse para devolver a carteira. Corri bem rápido e consegui alcançar tia Carmem, que já estava dentro da recepção. Fiquei muito assustado quando vi várias pessoas sentadas e deitadas no chão, todas gemiam de dor. Alguns pediram a ajuda da minha tia, mas ela disse que nada poderia fazer, todas as vagas estavam ocupadas. Voltei para o carro e nada perguntei ao meu pai, ele não gosta de responder algumas das perguntas que faço.

Sem querer, ouvi meus pais conversando numa tarde de domingo. Papai parecia preocupado. Ele disse que gastaria muito com o conserto do carro, logo de um carro tão novo. E ainda perderia alguns pontos na carteira. E a família do menino ainda iria querer dinheiro para pagar os médicos. O que mais o preocupava era o estrago feito no seu carro tão novo, tão atual. Só depois entendi que papai quase matou um menino, o atropelou enquanto ele brincava na rua.

Fiquei decepcionado, papai me disse que jamais machucaria alguém. O que mais me doeu foi que ele não se preocupava com o menino, só com o carro. O carro tão novo, tão bonito, tão azul. Papai comprou uma máquina de ferir, uma máquina de matar. E agora, ao ver os dois que eram tão bonitos, só consigo entristecer. Agora, mamãe e eu estamos tristes por causa de tudo que acontece. Papai só consegue se preocupar com o carro.


3 comentários:

  1. Genial, Gleanne! Brilhante! Essa tua desesperança irônica entra como faca nas vísceras do leitor! Quanto mais te leio, mais tenho certeza de serás uma grande escritora, sobretudo considerando o quanto ainda és surpreendentemente jovem! Ademais, essa proposta de fazer textos baseados em canções é um exercício maravilhoso! Pode estar certa de que o Renato, onde quer que esteja, sente-se muito honrado! Parabéns! Mas parabéns mesmo!
    GK

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    1. Muito obrigada, Gugu! Além de ser inspirado na música,é tudo o que vemos acontecer. E também estou pensando em escrever mais textos baseados em músicas, estou gostando muito de todos que escrevi até agora, rs.
      Beijos!

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  2. Pois é... Pensei em te dar essa idéia... Já que vc é tão fã do Legião, por que não começa a fazer textos baseados nas canções deles? Quando chegar a uns 40, terá um livro! E, se conseguir manter o nível desse que fez com "Metrópole", certamente será algo maravilhoso! Pense nisso! Ah! Só um detalhe... Se chegar a fazer, o primeiro exemplar será meu, hein?
    Bj!
    GK

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