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30 de mar. de 2013

Da vontade que eu tenho de dizer tudo isso

Se quiser eu até juro. Eu queria muito escrever um poema como os que li quando criança. Em que alguém declarava seu amor em rimas perfeitas, nas linhas certas. Cada linha possuía uma palavra certa, um sentimento exato. Mas como já era de se esperar, comigo é diferente. Sempre será.

Posso te amar desse jeito meio torto, meio doido, mas amo. Posso amar sem assumir, sem te dizer isso todos os dias, mas amo. Te amo em todas as vezes que saio de repente, sem despedir-me direito. Eu te amei quando fiquei encostada no portão te vendo correr pra longe, com medo de nunca mais te ver e restar apenas a visão daquela fuga. Eu já te amei e ainda amo. Você está em cada átomo, e isso basta. Você é aquele cara do livro que comecei a ler. Você é cada um e nenhum deles.

Você é. E está.

Há dias você não aparece aqui. Mas você está em frente ao portão toda vez que estou na janela. Está sentado na garagem da minha casa toda vez que chego lá. Você está encostado na mesa verde que já nem existe mais. Doeu ver a mesa no lixo, lembrei de você. A mesa foi pro lixo, as lembranças e os sentimentos ainda estão aqui. As porcarias das lembranças que tanto gosto de lembrar.

Ainda estamos rindo lá na garagem, basta voltar no tempo pra ver. E eu lá calada, feito uma idiota. Com o pensamento rondando céus e infernos, escrevendo textos que me sustentariam para o resto da vida. Relembrando palavras, e erros dos quais eu não me arrependo. Eu quis muito dizer que te amava, assim, no passado. Mas você está presente demais nesse meu presente que começou em dezembro e que não vai acabar nunca. Sei que nada é eterno, e você me faz pensar uma coisa diferente a cada minuto. De qual inferno você saiu, hein? Eu sei, foi daquele lugar que chamam de paraíso.

Você só veio enlouquecer minhas loucuras, fazer dos meus textos uns eternos clichês amorosos, da minha alma um troço bagunçado. Mas olha, não estou reclamando. Nunca gostei de organização mesmo. Pode continuar bagunçando. Só me diz alguma certeza, pelo amor das minhas palavras. Se não disser nada, reza. Mas reza muito. Eu te amo e sei que você entendeu.

9 de mar. de 2013

Quando o passado deixa de fazer falta...


Hoje passei em frente a tua casa, quer dizer, do condomínio onde você mora. Passei apressada, e olhei pra lá, só pra não perder o costume. E lá estava você na janela, fumando um cigarro e soprando a fumaça para o infinito. Você me viu, como sempre via. Sorriu. E eu não sorri de volta. Não preciso mais do seu sorriso, por mais estranho que pareça. Não preciso mais da sua presença, da sua voz, nem das suas risadas musicais.

Mas já precisei um dia, se você quer saber. Já quis ser uma segunda pessoa naquela janela. Sentindo o cheiro detestável do teu cigarro, mas te admirando mesmo assim. Te ouvindo falar do gosto de todas as bebidas que você já não bebe mais. Ouvindo tuas idiotices, sentindo os músculos dos teus braços. Braços que eu desejei contornar com as pontas dos meus dedos. Desejei, desejei muito. Já quis me encontrar nos teus olhos, me perder do teu lado. Já quis ser tantas, me transformar em outra pra você. Mas agora não quero nada disso, faz parte de um passado distante. E é até bonito de se lembrar.

Hoje eu sou só uma menina que desceu apressada do ônibus com vários livros, como sempre. Tenho uma vida que começou há quase quinze anos e não sei como vai parar. Mas um dia vou acabar, tudo - ou quase tudo - acaba. É o ciclo, é a vida. Sou cheia demais pra ter pessoas vazias ao meu lado. Quero alguém que me acrescente, que me faça transbordar; e também quero alguém que tire algo de mim, que me traga um pouco de leveza vez ou outra. Ou um pouco de vazio. E já encontrei esse alguém. Tão incerto como os números jogados na loteria, a possibilidade de ganhar é a mesma de um raio atingir minha cabeça. Mas os matemáticos não sabem que raios atingem minha cabeça quase que diariamente. Bando de loucos.

E você? Bem, você continua lá na janela fumando e soprando fumaça pro infinito, com aquelas dezenas de dentes perfeitos. Isso é algo que eu não posso negar, seus dentes são perfeitos, mas deixa pra lá. Já não importa mais.

E o alguém? Bem, eu posso abrir um sorriso largo e dizer: "Eu não faço a mínima ideia do que irá acontecer, só sei que estou feliz. E que seja para sempre, mesmo que acabe."

A vida continua
Fica tão pesada
A roda corrompe a borboleta
Cada lágrima, uma cachoeira
Na noite
Na noite de tempestade
Ela fechou os olhos
Na noite
Na noite de tempestade
Ela voou para longe
E sonhou com o para-para-paraíso
- Paradise, Coldplay.

3 de mar. de 2013

Sobre os dias em que fui uma Clarissa


Dia desses fui Clarissa, agarrada ao travesseiro, cravando as unhas nas mãos. Dia desses estava na janela, tentando ver as estrelas mais distantes; quase não as vi, as estrelas mais brilhantes haviam ficado pra trás. Eu era depressão no meio da felicidade, me sentia um fardo para todos, algo que deveria ser excluído. Pensei nas facas, nos remédios guardados bem ali.

Fui Clarissa me jogando na cama, abafando o choro. Despedaçada como sempre,como todos iriam fazer. Despedaçada por todos e por si mesma. Que culpa tinha ela de ser tão cheia dessa alma cheia de palavras? Que culpa tinha ela de não saber cuidar de si mesma, de não conseguir fugir? É nessas horas que o teto parece infinito, infinito na sua inutilidade.

E ali estava ela, mais uma vez, chorando por uma pessoa insensível.Com um vestido solto, fino, tão branco quanto sua alma. Uma alma pura que já havia experimentado toda a maldade do mundo. Se alguém a observasse do teto, enxergaria a coisa mais bela do mundo: um corpo magro jogado em uma cama bagunçada; um corpo tão branco quanto as nuvens; com uns olhos perfurantes, fixos, um olhar quase mortal, quase morto. Mas Clarissa era linda, mesmo que o choro fizesse dos seus olhos um espelho, olhos que agora são marrons. Os cabelos em desalinho, a fraqueza do corpo machucado demais.

Mas Clarissa possui uma força estranha, quase sobrenatural. Ela ficará jogada na cama, distante de todos, até que tudo passe. Nenhuma dor é eterna. Nada é eterno. Exceto o par de olhos verdes que fitavam tudo. E fitavam nada.

Clarissa e seus olhos, que vocês existam por toda a eternidade.
{ Texto inspirado na Clarissa, essa menina impossível de se traduzir em um só texto. }

13 de fev. de 2013

Thay

Apenas um copo d'água, cheio e idiota. Apenas uma mesa de restaurante, com uma garota sentada. São apenas garçons soltando piadinhas idiotas para a universitária bonita, que está mais preocupada em ler um romance do que com o resto do mundo. "Eu ainda mudarei esse mundo." Esse é o objetivo da universitária de óculos que já foi confundida com louca. Quer dizer, ela já foi louca, já foi idiota, já foi sonhadora demais, já foi boba. Hoje é realista, confundida com pessimista. Pobre mundo que duvida dela.

Pobres pessoas que confundem a dor dela com revolta. Doeu crescer, deve doer em todo mundo, mas sempre disseram que ela é a única em sua dor. Única em sua idiotice, em sua bobagem por querer ser criança outra vez. Nostalgia boba, eu sei. Ela também sabe. Ela também odeia, e sente vontade de jogar a mesa pro alto, e sair pisando firme, e chorar pra rir depois. Ela tem que ser perfeita, tem que ter todo o corpo "no lugar", tem que tratar as estrias e celulites. Pobre mundo que pensa que ela fará isso. Coitada da sociedade, que implorará até morrer. Feminista? Talvez, ainda em formação. Talvez a cabeça dela seja imatura demais para assumir tanta pressão. Mas tanto faz, ela sabe o que quer pra si, o que quer mudar no mundo. Sabe que é forte o bastante para mudar, para apanhar dos policias que impeçam seus futuros protestos, para rir da cara dos rapazes machistas que apareçam pelo seu caminho, para fazer tudo como o seu coração manda.

Thay já existe, já respira entre nós. Deve estar agora grudada em um livro, no seu apartamento de dois cômodos, com seu gato preto aos seus pés. Sim, ele é preto de propósito, para que os outros digam que ela é esquisita, e que tem 80 anos mentais, e que ficará "pra titia", e blá-blá-blá-morra-se-não-gostar. Thay está fazendo anotações em um dos vários cadernos, com os óculos escorregando pelo nariz, sorrindo sem saber por qual motivo. Sorrindo para si mesma, e para o mundo que não sabe que ela está lá. Thay existe, e eu tenho fé que ela seja assim. Ela não me disse palavra alguma, nem me sorriu. Apenas olhou nos meus olhos enquanto eu tomava café naquele restaurante agitado. E o olhar dela me disse tudo, me disse que ela mudará o mundo. E eu acreditei.

4 de fev. de 2013

Apenas o espaço vazio

Eu precisei soltar os cabelos depois que te conheci. Precisei sentir o vento tocar meu corpo, precisei sentir uma liberdade desconhecida, precisei sentir algo novo. Tive que mudar. Precisei abandonar os óculos escuros, tirar a escuridão dos meus olhos, a agressividade da expressão, o orgulho ao caminhar. Precisei retirar todo o peso que havia em mim.

Nada é garantido, eu sei. Você pode ser apenas o espaço vazio entre duas palavras, só uma trégua da guerra onde vivo. Pode ser só alguém que chegou, mas terá que partir. Ou não. Afinal, nunca se sabe. Mas tenho medo de que você não seja forte o bastante para suportar minhas loucuras, meus impulsos, e outras tantas particularidades que possuo. Tenho medo que você não entenda meus isolamentos que acontecem vez ou outra. Às vezes fico calada, trêmula, me encolho de frio. Sinto frio quando faz frio em minha alma, nada está relacionado com a temperatura que está fazendo em um lugar x. Tenho medo, medo de que você não consiga entender isso.

E enquanto permaneço com toda essa dúvida, você está em algum lugar, respirando o mesmo ar que eu, pensando em outro alguém. 


27 de jan. de 2013

Sobre o verbo ser

Só quatro semanas, menina. Um número que te fez crescer, um número que desaparecerá daqui alguns dias, um número que será outro. Que alma mais pesada, menina. Nem te entendo direito, coloquei um outro pra transmitir minha voz, pra te acariciar vez ou outra. Coloquei ele aí para ser consertado, tu remendarás o coração dele. Pouco a pouco, eu sei. Não se precipite, menina. Sei que tu és um impulso desde o primeiro instante, mas desacelere. São só quatro semanas, quase quinze anos. Tens muito pela frente, menina. Tudo virá, é questão de tempo. Já estás adiantada, mas não faz mal, segurarei teus sapatos quando for a hora certa. 

Não esconda o riso, menina. Pode ser que precisem dele. Quer dizer, precisam dele. Continue com a ideia de mudar o mundo, ela será realizada se você quiser. Ainda estou aqui, menina. Não renegue, não mintas, não... Admire-o, menina. Lembre-se que te falei sobre a hora certa, lembre-se que não te dei o relógio.

Desce do ônibus, menina. Já te mandei pular daí outras vezes, pule de novo. Ainda tens minha mão, ainda tens meu sorriso, ainda tens restinhos da alma de criança. Eu sei, é impossível não contaminar-se. Também fui contaminado, fiz o mesmo. Não quero que sejas santa, não quero que sejas papisa. Quero que sejas. Apenas isso. E tu és. E ser não é fácil como tu pensas, mas tu és no meio dos que não são.

Tu és. Eu sou.