12 de mar de 2013

Ela só queria um refúgio...

Tarde quente, mas o vento é frio. A casa de estilo italiano é solitária, sem portas abertas. Está abandonada,  aquela menina queria comprá-la. Pertenceu a um padre que largou tudo para casar-se. O amor falou mais alto. A tal casa parece perdida, parece ter vindo de outro chão. Uma exceção entre as lojas, entre casas de outros estilos. Exceção entre todos os carros, e por estar vazia. A menina disse que queria ficar lá, e de lá  observar sua alma perdida. Dentro dessa casa existe uma biblioteca, talvez sem os livros. Mas há o espaço para uma biblioteca, e era lá que a menina queria ficar.

Deixei a moça entrar na casa que ninguém queria, eu era só um corretor de imóveis. A tal casa era cara demais e velha demais, ninguém queria investir em algo antigo. E a moça parecia um anjo, tinha um brilho dolorido nos olhos, um sorriso feliz demais. Um sorriso que não combinava com um par de olhos tão tristes. Seu nome era Ana Clara, e ela só olhava e sorria, não ligava para os meus elogios, nem para os elogios dos outros homens que encontramos na rua. Ela estava com um vestido longo, mas parecia andar nua, parecia mostrar a alma. Deixei com ela a chave e meu telefone, queria ouvir sua voz rouca mais uma vez e eu também precisava daquela chave. 

Lá ela era uma menina perdida, fugitiva do mundo, buscando um refúgio. A moça considerava a casa uma Pasárgada, caso ela existisse. "Aqui eu sou a verdadeira Ana Clara", me disse a moça com um sorriso triste. O espaço era empoeirado, me causava um pouco de alergia, mas consegui me habituar com o cheiro de vida morta. Lá estava ela caminhando com o vestido coral, quase transparente, parecia até uma roupa de fantasma. A moça possuía um magnetismo estranho e eu não consegui deixá-la sozinha. Fiquei longe, observando-a. 

Ana Clara parecia um anjo destruído, de pele pálida, olheiras ao redor dos olhos, unhas grandes pintadas de preto. As unhas quebravam o toque angelical dela, mostravam a ponta de revolta que habitava naquele coração machucado. O vestido era longo, a festa já estava terminada. E dentro do sonho ela sonhava. Sonhava com aquele que ela não podia ter. E contorcida de dor ela delirava, imaginava que ele também estava ali, entre as paredes daquela casa.

O vento agitava o vestido dela, mostrava os pés pequenos que já pisaram em tantas pedras, que já ficaram submersos em tantas lamas. Ana Clara estava deprimida, descobri isso por causa das ondas de lágrimas que iam e voltavam. E ela olhava os pulsos como se ali morasse um refúgio. Eles eram a porta da morte, caso ela desejasse. Mas ela não queria morrer, queria desaparecer de outra forma. Transformar-se em um anjo, uma deusa da mitologia grega, uma santa dos ciganos, uma hippie. Mas Ana Clara era ela em sua individualidade, era ela em sua alma sem explicação. Seria ela até que uma guerra resolvesse devastar o mundo e ela fosse só mais um corpo sem vida. E que mesmo assim se destacaria entre os outros, pois ela morreria sorrindo.

Ana Clara, tente esquecer desse passado. Tente apagar as coisas, nem é tão difícil assim. Só é difícil pra você, menina. Que se apaixona sem ser calculista, que se entrega por inteiro, que ama sabendo que acabará mais machucada do que antes. E que aparecerá outro alguém tentando remendar um coração de séculos de existência. Coração de um único amor realizado. Ah, o coração de Ana Clara. Chega a doer só de imaginar. E ninguém remenda seu coração, não é? Dá uma trégua, Ana Clara. Você deveria aceitar os que te prometem uma paixão tranquila, daquelas de tocar violão vendo o sol  poente. Mas você não quer, menina. Você é insistente, seu coração também. Só quer ele, e ele você não sabe se terá.

Aninha você está me seduzindo com sua dor. Por que escolheu essa casa? Eu estou aqui e você nem sabe, moça. Você aí, caminhando, inocente... Forçando a porta da biblioteca, espirrando por causa do mofo. Você soltou um palavrão e eu comecei a rir. Não combinava com ela, mas ela disse e eu aceitei. Ela me ouviu rir e olhou para onde eu estava. Um olhar quase perfurante, mas havia uma ponta de doçura ali. Eu sorri e fui até ela. Assustada, ela pegou um livro grande, mas eu pedi que tivesse calma. Peguei sua mão gelada de tanto medo, parecia mesmo a mão de um anjo; a minha era calejada. Ela perguntou a razão, eu disse: "Violão, meu bem. Toco desde que era um rapaz, só não prossegui por causa de meu pai." Um brilho dolorido se acendeu nos olhos dela, mas ela consegui sorrir e dizer: "Então é um poeta das cordas? Gosto de violões, são lindos. Mas meu dom é outro..." Falou e depois olhou para a janela aberta, não conseguia me encarar.

Fui falando da minha vida, e ela aos pouquinhos foi revelando a dela. Era estudante e escritora. Me falou das paixões que nunca passaram de olhares, do único amor. Era uma menina, mas tinha uma alma tão sofrida que parecia viver desde sempre. Já era noite e estávamos sentados naquela casa enorme e vazia. Ainda havia energia ali, acendemos as luzes. E falamos de nossas vidas abertamente, ela me aconselhava. Eu também a aconselhava, mas ela só sorria e balançava a cabeça negativamente. Eu arrisquei beijá-la, mas ela me afastou com as mãos empurrando meu peito e disse: "Isso seria uma traição..." Eu pedi explicações, então ela me contou a história de um rapaz que havia entrado em sua vida, mas que não a quis por infinitas razões. Ele estava com outra, mas ela ainda sofria por ele. E era por ele que chorava. Ela chorou no meu peito, quase desfalecendo, pensei até que morreria. Parecia tão frágil, tive medo de quebrá-la se a apertasse um pouco mais. Mas ela disse que sabia que sofrer daquele jeito não adiantaria de nada, ela só queria alguém pra remendar seu coração quebrado. Eu disse que me candidataria, e nós rimos. Foi a vez dela de pedir um beijo. E ela chorava, dizia que o fim dela estava próximo, por isso se daria ao luxo de se deixar levar em outros braços. Ela levantou-se de repente, me pegou pela mão e não disse nada. Eu a acompanhei, enquanto ela abria as portas e procurava um cômodo. Até que achou um quarto, o único que não estava empoeirado, parecia um milagre. Ela ficou na porta, pensando, distante dali. Eu entrei, puxei-a para dentro e a beijei até ficar tonto.

Ana Clara me olhou meio assustada, foi até a janela, ficou de costas e tirou o vestido enorme que se resumia a um círculo alaranjado no chão. Era meio irracional estar com ela, realmente parecia um espírito, era estranho e lindo ao mesmo tempo. Era alta, quase da minha altura, mas parecia pequena. Tinha asas tatuadas nas costas, uma estrela no tornozelo. Ela permaneceu de costas até que eu me aproximei e beijei suas asas. Agora prefiro calar, e dizer apenas que nos amamos naquele quarto quase fantasmagórico.

Quando pensei que ela acordaria ao meu lado, ela não estava lá. Havia saído, deixou só um bilhete: "O que há de melhor na vida acaba, passa depressa..." Procurei feito louco por ela, passei dois dias nessa busca. Até que vi estampado nos jornais, uma moça de asas tatuadas nas costas havia morrido atropelada, não havia sido identificada. Foi para o paraíso, minha Ana Clara, meu amor...

Um comentário:

  1. Que bonito. Gostei dos índices em seu conto, essa brincadeira de sugerir o desfecho de forma sutil.

    ResponderExcluir

Já que gostou, comenta! É isso que me faz feliz. ;)