25 de jul de 2013

Não vejo só poesia


Os cabelos que caem no ralo do banheiro são apenas pequenos sinais de morte. Outros fios virão e preencherão o espaço vazio. Os pingos que caem deveriam ser pequenos sinais de alegria para ti. A água que tira o teu cansaço deveria te fazer sorrir.

Que sabe, rezar no banheiro. Sentir a água caindo, gelada, te fazendo tremer. Meditar, agradecer. Agradecer por tudo o que você tem. Se arrepender, quem sabe? A água continua caindo e você deveria ser grato. Ainda há água no planeta, ainda há vida na nossa pequena Terra. A água cai no seu corpo transformado, corpo que já te fez chorar. Corpo magro adolescente, corpo um pouco modificado pela fase adulta, corpo totalmente transformado pela meia-idade. Nada com o que se preocupar, certo? As moças da televisão são apenas marionetes, escravas do tão conhecido padrão. Não há motivos para chorar, o tempo muda tudo o que atravessa o seu caminho. Isso deveria ser um sinal de gratidão.

Se arrepender, quem sabe? Melhor arrepender-se agora. Das mentiras, da brutalidade e falta de amor no coração. Você tinha dinheiro quando aquele senhor te implorou por alguma moeda. Você zombou dos dependentes químicos, disse que a culpa era unicamente deles. Mas você nunca passou fome, nunca foi espancado, nunca foi humilhado por ter nascido, jamais foi odiado pelos próprios pais, nunca precisou de um meio para escapar, jamais precisou ver luz em algum fim de túnel. Tudo está sob seus olhos, tudo está ao toque das tuas mãos.

A mulher que apanha, a criança que agoniza de fome, o homem que corta os pulsos. E você, um executivo bem sucedido, que nunca sentiu o estômago roncar sem ter alguns reais nos bolsos? E você, mulher de bancário rico, presa no próprio mundinho luxuoso? E você, rapaz mimado que chora por não ter o mais novo celular da Apple? E você, moça que quer estar dentro dos padrões da mídia, mesmo que perca a vida por causa disso? Você que não aceita as estrias, os seios pequenos, as coxas desproporcionais. Você que trata as mulheres como meros objetos, que usa a força para que a namorada faça o que você quer. Você que não pede o divórcio para o marido machista por causa da conta bancária dele.

Você que é gente comum e quer ser como os que aparecem na TV. Você que tem tudo oque precisa, mas quer o carro mais novo, a área mais nobre da cidade, o celular assinado pelo gênio da tecnologia, o computador mais fino do mercado. Vocês de olhos tapados e corações congelados: há uma família que é sua, mas você não os conhece, não sabe nem como é capaz de lembrar o nome deles. Há um céu estrelado, mas você não se dá o trabalho de olhar para cima. Há um pedinte solitário no chão que sempre te cumprimenta, mas você não pode perder o seu precioso tempo para respondê-lo.

Você, que é um dos "vocês" aqui citados: é hora de mudar!

Tudo o que você vê, bom o ruim, é o que você poderia ser.

7 comentários:

  1. E a mudança deve começar de dentro para fora.

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    1. É o que eu tenho tentado colocar em prática.

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  2. Muito bom Gleanne! Expressou perfeitamente meus pensamentos das últimas semanas. Vamos fazer a mudança acontecer! Aqui eu já comecei. :)

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    1. Esse texto estava entalado na minha garganta há muito tempo, finalmente consegui escrevê-lo. A mudança começa dentro de nós para depois espalhar-se pelo mundo. Somos poucos, mas existimos. ^^

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  3. Gleanne...
    Além de registrar que a cada dia fico mais fascinado com a qualidade da tua escrita, quero te recomendar uma música que, sincronicamente àquele projeto de escrever textos baseados em canções do Legião, tem tudo, mas tudo a ver com este teu post... Não sei vc conhece... É uma antiga canção composta por Belchior, que também foi gravada pelo Engenheiros do Hawaii, intitulada "Alucinação". Procure, que vc vai ficar impressionada...!
    Parabéns por mais esta tua obra prima!
    GK

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