21 de out. de 2012

Rascunho qualquer

      Eu tenho mãos inábeis e um cérebro totalmente ativo. Meus objetivos que eram duvidosos, se enchem de esperanças. Estou me aproximando da certeza. Nasci para fazer o que escolhi, embora eu saiba que o caminho que leva ao alvo é duvidoso. Creio que este seja o meu alvo.
      Não posso negar os meus bloqueios, que são insistentes. Mas a necessidade é algo que vai além do limites que são impostos pelo cérebro. Não há nada melhor do que derramar-me aqui...
      De uns tempos para cá, a minha lucidez anda de mãos dadas com a loucura. Pobres escritores, sabem tanto sobre o mundo e mal entendem o próprio eu. Para quem não sabe: eu nasci em uma família de escritores.

20 de out. de 2012

Tony e Damon

      Macabro, macabro. Lugares imundos fazem com que eu lembre deles. Ruas escuras, vento frio, vento, vento. Pesadelos! Tony, é tudo culpa dele! Ele me arrastou para dentro desse lugar escuro, depois me arrancou de lá, mas, conseguiu me traumatizar. Damon, ele é o demônio da minha vida, um vulcão aparentemente adormecido. Estes são os dois amores da minha vida. O primeiro, eu amei; o segundo, diz que me amou.
       Ambos foram doces. Ambos são amargos. Tardiamente eu os conheci, dois seres de almas imundas. Pessoas repugnantes, provocam náuseas em qualquer um. Eles me enlouqueceram, me deixaram chutando paredes, me atormentam até hoje.
       O que nos une é algo muito forte, de outras vidas. Nos odiamos no passado e nos odiaremos por toda a eternidade. Eles me empurraram para o desconhecido.

17 de out. de 2012

Papisa Joana

      Nascida no dia 28 de janeiro de 814, filha de um padre e uma saxã, Joana veio ao mundo para enfrentá-lo e mudá-lo a qualquer custo. Disposta a enfrentar todos os obstáculos, até mesmo o seu sexo. Joana deveria ter sido como qualquer outra mulher de sua época: destinada a casar, ter filhos e a ser um objeto do marido. Mas não, ela era diferente. Ela teve uma infância difícil, por causa do amor que tinha pelo conhecimento. Foi excluída pelas pessoas da aldeia, espancada diversas vezes pelo próprio pai e espancada por si mesma.
      "O que havia de errado com ela, que não desistia de seus sonhos impossíveis? Todo mundo lhe dizia que seu desejo de aprender era desnaturado. No entanto, ela tinha sede de conhecimento, ansiava por explorar o mundo mais vasto das ideias e das oportunidades aberto para as pessoas cultas." (pág: 48)
      Após fugir de casa e entrar em uma escola (até então, Joana ainda admitia sua identidade de mulher), mais uma vez ela foi excluída, pelos garotos da escola e odiada por Odo, seu professor. Depois de apresentar-se ao bispo e ter seu conhecimento examinado por Odo, Joana foi levada por Gerold para morar na casa dele enquanto ela estudasse. Aliás, Gerold é o cara, o homem mais encantador do mundo literário e da vida de Joana, claro. E como era de se esperar, Joana apaixonou-se por ele. E por causa desse sentimento Joana tornou-se alvo da manipuladora Richild, esposa de Gerold.
      Depois de muitas reviravoltas, Joana assumiu o lugar de seu irmão morto, tornando-se monge em Fulda. E depois de outras reviravoltas (estou citando 'reviravoltas' demais, eu sei. Mas é isso, ou eu contarei todo o livro, haha.), Joana partiu para Roma, chegando assim ao cargo mais alto, o de Papa. A Papisa Joana.

***
     
      Sem dúvida alguma, este livro é o melhor que eu já li. Joana é muito mais que um exemplo e é quase desconhecida (até meu professor de História pouco sabe sobre ela), é um livro que todos deveriam ler. Joana me mostrou o quanto é possível realizar o impossível, mesmo que para isso tenha que se negar a própria identidade. Joana amou Gerold, a sua única fraqueza quase que indomável. A existência de Joana foi aceita pela Igreja Católica durante a Idade Média. Mas a partir do século XVII, com o ataque do protestantismo, o Vaticano procurou apagar todos os sinais da existência dela, o que pelo visto, não fizeram muito bem. E nem poderiam fazê-lo, Joana não mereceria ser apagada da História. Donna Woolfolk merece todo o meu reconhecimento pela maravilhosa obra que escreveu.
Resquiesce in pace, Johanna Papissa.

14 de out. de 2012

Alguém

      Ninguém sabe dos meus sofrimentos, sou uma "criança trocada". Minha alma é dividida em dois pedaços, talvez três; cada um com seus sentimentos. Eu não sinto com o coração, muito menos com o cérebro. Eu sinto com a minha alma repartida, minha alma barrenta. Alma que ninguém conhece. Digamos que o meu corpo seja uma mera coincidência. Um corpo ferido, com ossos quebrados. Qualquer um me julgaria igual.
      Seria bom ter alguém que me conhecesse por completo. Alguém que me fizesse esquecer de todas as minhas teorias, de todas as minhas palavras. Alguém que me prendesse da forma mais livre possível. Alguém que entendesse meus olhares, a velocidade da minha respiração, os meus momentos de isolamento e as minhas lágrimas infantis. Alguém que soubesse que eu sou uma menina triste, que identificasse os meus sorrisos falsos e meus olhares cabisbaixos. Alguém que me desse um dicionário, não quinze reais de créditos e uma frase feita que não faz sentido algum. Alguém que me abraçasse como se fosse um melhor amigo. Alguém que me ligasse só pra dizer que são quase quatro da manhã e está faltando energia.
      Esse "alguém" existe? - É claro que não.

13 de out. de 2012

Outra noite de insônia

     Mais uma vez o vento frio vem me fazer companhia, acariciando o meu rosto, derrubando todos os meus papéis no chão, caminhando de leve pelo meu quarto, deixando-o cheio de invisibilidade. É uma noite fria, mas eu me contento com uma regata antiga e uma calça qualquer. Me encolho só por costume, só pra sentir que eu ainda estou comigo. Não há um ruído por aqui, a rua está perfeitamente deserta, os postes estão todos apagados. As estrelas estão magníficas hoje, a luz da lua entra no meu quarto e briga com vento. Tenho que admitir que a solidão me amedrontou e era isso que eu queria. Mas o medo já passou e deu lugar ao prazer imenso de ficar sozinha.
     Estou com insônia e estou maravilhada. Nada melhor do que uma insônia quando se quer pensar no presente, lembrar do passado e planejar o futuro. Eu até gosto do meu presente, já que eu consegui alugar um apartamento de três cômodos que formam um só, conquistei o silêncio que eu idealizei e já estou estagiando. O meu passado se resume na batalha para conquistar o meu presente. E o futuro não precisa de explicações. De uma certa forma, é até bom que nada se saiba do futuro. Pois a independência que eu julgava impossível já está nas minhas mãos.
      Mas uma parte do meu passado foi terrível, como eu odeio lembrar dos meus catorze anos e instantaneamente lembrar dele, da minha casa barulhenta, do carro dele na rua e da voz ecoante que ele tinha. A voz dele foi uma canção de ninar que nunca foi cantada ao meu ouvido. Ele significou tanto sem saber o que significava. Ele se foi durante o mês de agosto. Na época eu estava muito deprimida, com pesadelos constantes e pressentimentos ruins. Eu sempre sentia quando algo de ruim estava acontecendo com ele, mas eu não consegui evitar. Ele se foi e eu quase morri. Eu fiquei viva, não sei se foi por sorte, ou se foi por azar.
     Eu sei que a ideia de ficar sozinha até a morte é muito deprimente, mas eu sempre fui solitária e depois de algum tempo acabei me acostumando com a falta daquela presença. Tentei tirá-lo da minha mente, mas não existia um cara capaz de ocupar o lugar dele. Foram muitos beijos que me davam náuseas, muitas vozes que me deixavam com dor de ouvido. Foram muitos garotos sem significados, sentimentos. Nenhum deles conseguiram ocupar espaço algum. Um monte de inúteis.
     Até que chegou o dia em que eu desisti de procurar alguém que chegasse aos pés dele. Simplesmente aceitei os fatos. E parei aqui, nesse apartamento silencioso, bebendo refrigerante e observando a luz da lua brigar com vento.