9 de mar. de 2013

Quando o passado deixa de fazer falta...


Hoje passei em frente a tua casa, quer dizer, do condomínio onde você mora. Passei apressada, e olhei pra lá, só pra não perder o costume. E lá estava você na janela, fumando um cigarro e soprando a fumaça para o infinito. Você me viu, como sempre via. Sorriu. E eu não sorri de volta. Não preciso mais do seu sorriso, por mais estranho que pareça. Não preciso mais da sua presença, da sua voz, nem das suas risadas musicais.

Mas já precisei um dia, se você quer saber. Já quis ser uma segunda pessoa naquela janela. Sentindo o cheiro detestável do teu cigarro, mas te admirando mesmo assim. Te ouvindo falar do gosto de todas as bebidas que você já não bebe mais. Ouvindo tuas idiotices, sentindo os músculos dos teus braços. Braços que eu desejei contornar com as pontas dos meus dedos. Desejei, desejei muito. Já quis me encontrar nos teus olhos, me perder do teu lado. Já quis ser tantas, me transformar em outra pra você. Mas agora não quero nada disso, faz parte de um passado distante. E é até bonito de se lembrar.

Hoje eu sou só uma menina que desceu apressada do ônibus com vários livros, como sempre. Tenho uma vida que começou há quase quinze anos e não sei como vai parar. Mas um dia vou acabar, tudo - ou quase tudo - acaba. É o ciclo, é a vida. Sou cheia demais pra ter pessoas vazias ao meu lado. Quero alguém que me acrescente, que me faça transbordar; e também quero alguém que tire algo de mim, que me traga um pouco de leveza vez ou outra. Ou um pouco de vazio. E já encontrei esse alguém. Tão incerto como os números jogados na loteria, a possibilidade de ganhar é a mesma de um raio atingir minha cabeça. Mas os matemáticos não sabem que raios atingem minha cabeça quase que diariamente. Bando de loucos.

E você? Bem, você continua lá na janela fumando e soprando fumaça pro infinito, com aquelas dezenas de dentes perfeitos. Isso é algo que eu não posso negar, seus dentes são perfeitos, mas deixa pra lá. Já não importa mais.

E o alguém? Bem, eu posso abrir um sorriso largo e dizer: "Eu não faço a mínima ideia do que irá acontecer, só sei que estou feliz. E que seja para sempre, mesmo que acabe."

A vida continua
Fica tão pesada
A roda corrompe a borboleta
Cada lágrima, uma cachoeira
Na noite
Na noite de tempestade
Ela fechou os olhos
Na noite
Na noite de tempestade
Ela voou para longe
E sonhou com o para-para-paraíso
- Paradise, Coldplay.

Preciso ir, mas eu volto

O problema é o seguinte: algumas dezenas de anões passaram falando latim ao meu lado. Anões. Sim, eu estou drogada. Meu namorado está aqui comigo, mais drogado que eu. Nós dois passamos a tarde inteira falando das nossas infâncias. Ele era um filhinho de papai. E só me faltou pedir esmolas. Hoje somos iguais, drogados, apaixonados e perseguidos por todos. Ou perseguidos por ninguém. Ou só por nós mesmos. Seremos mortos pelo nosso amor, por causa da nossa liberdade em plena sociedade conservadora.

E eu estou grávida, pela milésima vez. E pela milésima vez vou abortar uma criança que quase não existe. E eu vou continuar com as mentiras, e quase ninguém se importará. Me resta o delírio, o teto girando, um rapaz ao meu lado que diz me amar. Um rapaz ao meu lado que eu sei que me ama. Sabe, minha infância foi dura, mas não importa mais. Me mandaram pra um psicólogo, mas ele veio me falar dos problemas dele. E eu... Não sei, mas as coisas vão mudar algum dia. Eu só tenho que sair daqui, só não deixo esse rapaz sozinho. Minhas amigas mandaram eu sair de perto dele, só que não vou. Agora eu estou rindo sem nenhum controle da cara delas. Idiotas. O que sabem de mim? Nada. Mas sabem tudo. E eu que não sei de nada. E essa droga de maconha não faz nenhum efeito.

Acorda, cara! Eu preciso ir, não me peça pra ficar. Você sabe que eu volto, eu sempre volto. Tem outro cara me esperando, está sentado na mesa de um restaurante aí. E eu vou inventar uma desculpa qualquer. Me larga! Não, meu amor. Eu não te abandono, não chora. Te amo. Olha, como você quer que eu arrume esse dinheiro se eu não disser que vou casar com aquele idiota? É só mais um tempo. Tenho que abortar nosso filho. Não me peça pra deixá-lo nascer. Vou casar com outro. Sim, sim, sim, eu te amo. Mas também preciso de dinheiro, esqueceu? Nós precisamos. Sim, depois eu me separo, fico com o dinheiro dele. Eu te amo.

Já vou. E eu volto. Enquanto isso você pode vender algumas drogas, conseguir outras mais fortes pra nós. Eu estou um pouco tonta, mas o idiota não vai perceber. Sei lá, eu pego uma carona, invento que alguém morreu. Agora veste essa roupa e não me olha com essa cara. Eu realmente preciso ir se quiser ter algum dinheiro. Adoro esse teu cheiro de vinho misturado com fumaça, mas aquele idiota me espera. Tchau.

4 de mar. de 2013

Mostrar a realidade é algo necessário...

Vocês ainda não sabem, mas eu sou criatura muito doida. Prova disso será a conversa que eu postarei a seguir. Muitos me desconhecerão, eu sei. Afinal, só posto textos fofos, depressivos, incompreensíveis, idiotas, coerentes ou incoerentes aqui. Nada sobre a minha vida com sal, pimenta e chá de boldo em excesso. E sim, eu ainda continuarei escrevendo os mesmos textos. O diálogo a seguir não muda em nada a minha alma; já que tenho uma alma dividida em três partes.
Ah, a conversa foi com a Mia, em uma madrugada obscura de domingo para segunda-feira.

Glen: "É Murphy querendo tirar a Mia das nossas vidas..."
Mia:  "Tu também só me aparece off, guria."
Glen: "Facebook infeliz..."
Mia: "Fb sempre ferrando com meus relacionamentos. Affs."
Glen: "Um dia nos vingaremos... muhahaha"
Mia: "**vingança**
*____________*"
Glen: "Queria ver os olhos da Mia brilhando ao ler essa palavra. oow *-*"
Mia: "Sério, há poucas palavras que fazem meus olhos brilharem, mas essa é uma delas."
Glen: "A outra é meu nome, eu sei. HAHAHAHA! *-*"
Mia: "GO TO HELL
hahahaha"
Glen: "Cara, acho que é melhor eu ir mesmo. Preciso perguntar algumas coisas ao capeta, sobre o Murphy, claro."
Mia: "If I can't go to heaven why don't you let me go to hell? ♪"
Glen: *-*
Mia: "Quero uma lhama pra chamar de minha! o/"

Vocês podem observar que a conversa muda totalmente de rumo, mas continuamos mesmo assim.

Glen: "WTF? Eu sou uma carneira, tá?"
Mia: "Tá cabrita. hahaha
(incorporei a Arih agora)"


Glen: "hahahaha! Olha, eu sou uma carneira com cérebro evoluído. #aloka
Mia: "HAHAHAHAHAHAHAHHAHA
aloka total"
Glen: "Sei lá, as madrugadas me transformam."
Mia: "Nos transformam.
Vou acabar fazendo outro vídeo de camisola, eu sinto em meu útero. HAHAHAH"
Glen: "Opa! Acabo de sentir contrações em meu útero. Acho que é uma nova cabra em formação."
Mia: "THIS IS TOO MUCH INFORMATION
hahaha"
Glen: "Ó: faça o vídeo."
Mia: "Mas BEEEEEEEEEM capaz. hahaha"
Glen: "hahaaha.
Como chamaremos minha (cabra) filha? Que tal colocar o mesmo nome da madrinha? E olha: a madrinha é você, Mia."
Mia: "GO TO HELL part 2 - no regrets
NÃONÃONÃONÃONÃO
hahaha"
Glen: "HAHAHAHAHA.
Mia, agora me responda: como diabos uma humana e um suricate fabricam uma cabra? hahaha"
Mia: "UM O QUÊ?
Medo da sua resposta. haha
Assim: vocês cospem num balão, aí tu engole o balão (e o balão contem o cuspe de vocês e um de uma cabra também, com um pedaço de pelo, claro) e deixa no sol por um tempo, aí depois de engolir é só esperar e quando for ver lá estará a cabra abrindo um - enorme e irreparável - espaço.
Glen: "Droga, escrevi uma resposta super massa, daí o fb não publica."
Mia: "Tô falando: o fb tá de sacanagem com a gente."
Glen: "O suricate, aquele bichinho magrinho, que fica de pé que nem gente.
Então: adorei sua teoria. Einstein aprovaria.
Depois de pensar em suas palavras, percebi que com um simples comentário de facebook nós poderemos salvar muitas espécies da extinção. E o melhor, com um método simples e nada constrangedor de uma fecundação sexuada. Será quase uma nova arca de Noé. Só que sem arca, e sem Noé.
Gênesis, lá vamos nós."
Mia: "Mas eu quero meu dilúvio!
- sou uma boa nadadora, amore -"
Glen: "Calma, calma. Navio afundando em alto mar tá aí pra isso."
Mia: "o/ 
YEEEEEEEEAHHHHHHHHHHHH"

Glen: "Hahahahahaha.
Só digo uma coisa: vou criar a tag "alopradas" no blog e postar essas conversas. É mais que necessário."
Mia: "Cara, eu já copiei umas conversas e estão no rascunho do blog. HAHAHAHAHA"
Glen: "HAHAHAHAHAHA (infinito).
Tia Mi, posta as conversas, please."
Mia: "Tá, eu vou postá-las. Mas não me responsabilizo pelas pessoas nos largando de mão depois, viste? HAHAHAHAH
Em pensar que tudo começou com uma conversa de 10h sobre frangos."
Glen: "HAHAHAHAHHAHAHAHA! PELAMOR!
Olha: poste, coloque os links. E sobre o povo dizendo "tchau", ou ficando offline: eu não tô nem aí. Os amigos que são importantes, são tão doidos quanto eu, ou são pessoas normais, mas que já acostumaram-se comigo. OU SEJA: abraça Murphy e atravessa a avenida de olhos fechados que não importa mais. Viva la vida. o/"

Se você não entendeu nada sobre: "Em pensar que tudo começou com uma conversa de 10h sobre frangos." aí vai um gif. E a história detalhada dos frangos, e sobre o que descobrimos deles ficará pra outro post. ;)

3 de mar. de 2013

Sobre os dias em que fui uma Clarissa


Dia desses fui Clarissa, agarrada ao travesseiro, cravando as unhas nas mãos. Dia desses estava na janela, tentando ver as estrelas mais distantes; quase não as vi, as estrelas mais brilhantes haviam ficado pra trás. Eu era depressão no meio da felicidade, me sentia um fardo para todos, algo que deveria ser excluído. Pensei nas facas, nos remédios guardados bem ali.

Fui Clarissa me jogando na cama, abafando o choro. Despedaçada como sempre,como todos iriam fazer. Despedaçada por todos e por si mesma. Que culpa tinha ela de ser tão cheia dessa alma cheia de palavras? Que culpa tinha ela de não saber cuidar de si mesma, de não conseguir fugir? É nessas horas que o teto parece infinito, infinito na sua inutilidade.

E ali estava ela, mais uma vez, chorando por uma pessoa insensível.Com um vestido solto, fino, tão branco quanto sua alma. Uma alma pura que já havia experimentado toda a maldade do mundo. Se alguém a observasse do teto, enxergaria a coisa mais bela do mundo: um corpo magro jogado em uma cama bagunçada; um corpo tão branco quanto as nuvens; com uns olhos perfurantes, fixos, um olhar quase mortal, quase morto. Mas Clarissa era linda, mesmo que o choro fizesse dos seus olhos um espelho, olhos que agora são marrons. Os cabelos em desalinho, a fraqueza do corpo machucado demais.

Mas Clarissa possui uma força estranha, quase sobrenatural. Ela ficará jogada na cama, distante de todos, até que tudo passe. Nenhuma dor é eterna. Nada é eterno. Exceto o par de olhos verdes que fitavam tudo. E fitavam nada.

Clarissa e seus olhos, que vocês existam por toda a eternidade.
{ Texto inspirado na Clarissa, essa menina impossível de se traduzir em um só texto. }

1 de mar. de 2013

Fatos da madrugada #1

Meia-noite, lanchonete lotada, todas as mesas estão servidas. Eu sentado aqui, com as pernas esticadas, pensando... Pensando em como seria se eu estivesse em um beco esquisito, fumando um cigarro, bebendo cerveja, com uma jaqueta de filhinho de papai. Não, longe de mim... Não quero ser igual ao meu pai, um bêbado. Infelizmente é a realidade. Não tenho nem cinco minutos de descanso, tudo nas costas do novato que vai cedo pra casa. Um estranho no meio dos garçons que pegam geral, que aspiram mais fumaça de cigarro do que o próprio oxigênio, que escutam músicas ruins. Que são meus opostos. E não, os opostos não se atraem. Não vou com a cara deles, mesmo que minha mãe seja amiga do dono da lanchonete. Aliás, só estou trabalhando aqui por isso.

Eu poderia estar na faculdade, porra. Eu poderia estar em tantos outros lugares, mas estou aqui, feito escravo. Sou escravo dos sonhos que não realizei, estou quase desistindo deles. Droga! Meu rosto refletido no espelho do banheiro, mil clientes lá fora. O reflexo me atrai tanto, queria ser Narciso, quem sabe Dorian Gray. Ah, esquece! É só o primeiro dia de trabalho, vamos lá. Acalme-se, Rodolfo. (Isso já virou um mantra, argh.) Mas, na boa, acalme-se. Volte lá, anote os pedidos e transmita tudo ao chapeiro idiota. "Refrigerante e sanduíche, água e vitamina, suco e cerveja. Respectivamente nas mesas 12, 7 e 4, Rafael!" Gritei da porta do banheiro e o cara disse "vá se foder" baixinho, pelo menos não gritou. Sério, que tipo de gente bebe água e vitamina ao mesmo tempo? Povo maluco...

"Hora de ir pra casa, cara. Quer dizer, se quiser beber alguma coisa, falar de futebol e das mulheres que estão passando na rua, pode ficar. Ah, você se saiu muito bem." "Não, não vou ficar. Vou dormir, sei lá, acho que é falta de costume..." Saio da lanchonete fechada, com as mãos nos bolsos e gostando do vento frio no meu rosto. Queria morar longe daqui, pelo menos eu sairia andando pra casa, observando as casas tranquilas durante a madrugada. Se um dos meus amigos me escuta dizer isso, me chamaria de gay. Tenho que deixar de preocupar-me com isso, se eu quiser continuar vivendo, claro. Sei lá, sou estranho mesmo. Ou apenas diferente dos outros. Só gosto de ler os clássicos, os livros idiotas e vez ou outra me arrisco escrevendo. Nada demais, não é? Mas sempre depende do ponto de vista...

Se eu falo isso pra aquela menina ali da janela, acho que ela riria da minha cara, isso sim. "UM CARA QUE É CHAMADO DE GAY, E QUE ESCREVE!" Grande curriculum vitae, Rodolfo. Palmas, você merece. É melhor manter a calma... Calma, calma... Mas ela me olha, queria saber por quais motivos ela faz isso. Veio umas trezentas vezes até a janela. Estava com um celular, depois com um caderno, depois escreveu algo. Olhando pros lados, obviamente tentando disfarçar. Mas você não conseguiu disfarçar, garota. Não dessa vez. É melhor eu ir dormir, descansar um pouco e esquecer da vizinha estranha. Quer dizer, ela não é estranha, só é normal. E estava abraçada com um cara dia desses. Cheguei tarde... Mas esquece, já apaguei a luz e matei meus sonhos. Matei-os até eu abrir os olhos outra vez.

continua...