3 de nov. de 2012

Sobras

Não há nada de revelante para dizer, ou melhor, eu não quero é transbordar porcarias por aqui. Passei dois dias limpando poeira e jogando uma parte da minha infância mofada no lixo. Sim, no lixo. E eu a jogaria outra vez, sem arrependimento algum. Se eu pudesse, teria queimado tudo aquilo. Como eu queria ter pulado algumas partes da fase que dizem que é a melhor da vida de um ser humano. Como eu queria mudar meu passado, pelo menos apagar parte dele.
Vamos lá, julguem-me! Eu gosto de ser julgada, só para rir da cara dos meus acusadores. Eu gosto de ser assim. Porém, eu não gosto do que eu fui. Mas, dizem que nada acontece por acaso. E eu (feliz ou infelizmente) acredito nisso. Acredito em tantas coisas, e ao mesmo tempo, duvido de tudo. Novamente, julguem-me.
Para acreditar que não sou a única, tive de encontrar o meu espelho. Encontrei-o, e ele é tão embaçado quanto eu. Tão duvidoso e negativo quanto eu. Encontrei-o em mim mesma, para depois procurá-lo pelo mundo. Até que eu achei o fracassado que se diz feliz. Minha alma foi moldada com as sobras da alma dele. Só pode, porque eu nunca encontrei duas pessoas tão sofridas, tão imundas e tão limpas por dentro. Porcaria de produção de almas. Eu ainda tive vontade de me mandar para assistência técnica, mas, almas não podem ser consertadas.

31 de out. de 2012

Vidente

      Quanto tempo faz que eu não te vejo? Eu sempre tenho medo de fazer as contas e me assustar. O tempo tem corrido muito, e eu praticamente te anulei dos meus pensamentos. Porém, nas madrugadas geladas eu sempre sonho contigo. É uma forma de te manter por perto, mesmo que esteja tão longe.
      Você sempre ria do meu ideal de vida. Você falava que ria por me admirar demais. Eu sempre defendi a liberdade, acreditei e ainda acredito na liberdade de todos. O certo é fazer o que o coração pede. Pecado ou não, foi maravilhoso ter feito essa loucura.
      Eu era racional demais, sempre estava me culpando por ter feito isso ou aquilo. Lembra que foi você que me tirou o medo de quebrar regras? Você que me ensinou a esmurrar paredes, defesa pessoal, me ensinou a nadar e centenas de outras coisas. Acho que você não lembra de tudo isso. Mas, pouco importa. Afinal, o teu caminho já estava trilhado, ou você não quis mudá-lo. Eu te entendo, sempre entendi. Pessoas como eu não convivem com pessoas como você. Tão opostos e tão iguais.
      Volta e meia você descrevia um pouco do meu futuro, com um sorriso idiota e olhando pro infinito. Segundo as tuas previsões, quando eu completasse meus trinta anos, eu já deveria estar casada e com uns dois filhos. Eu ri, ri até te deixar constrangido. Ri por saber que isso era completamente impossível. Eu te expliquei que nasci para viver sozinha, então, você me perguntou porque eu estava na sua cama. Eu te disse que não era preciso que você se enganasse ao tentar me enganar. Era só um caso de poucas noites. Acabaria em breve, isso me doía, mas eu não deixava transparecer. Eu estava agindo como se estivesse jogando contigo. Agi como se eu fosse uma pessoa fria, só que eu não era assim. E você sabia disso, tanto quanto eu. Você me conhecia, e poderia me deixar tão frágil como uma criança. Mas é claro que eu nunca permiti. Eu sempre tive mais controle do que eu imaginava.
      Foram uns doze dias juntos, ou quinze, não lembro bem. Depois disso você viajou para um lugar que eu não quis saber o nome. Não sei por onde você anda, eu nunca quis saber. Eu poderia ir atrás de você, eu sei que faria isso se me descontrolasse. Você deve estar muito diferente, se é que ainda está vivo. Isso me dói mais ainda. A ideia de ver você morto sempre me atormentou. E me atormentará para sempre...
      Agora eu estou em uma dessas madrugadas idiotas em que só lembro do meu passado, do nosso passado. Cansada depois de um dia de trabalho, e com uma maldita insônia. Eu já passei dos trinta anos e nunca me envolvi por muito tempo com alguém. Nunca casei, e não tenho filhos. Sabe, eu só queria te ver agora, pra te dizer que você é péssimo em tentar prever o futuro. Eu queria rir da sua cara e te chamar de idiota só mais uma vez. E, de novo, você é um péssimo vidente.

30 de out. de 2012

Traída

      Não há nada de concreto, por enquanto. Porém, segundo os meus cálculos, eu acabo de ser traída por quem prometeu me proteger. E eu que julgava conhecê-lo. Se eu realmente possuísse o poder de adentrar na alma das pessoas, certamente eu não estaria tão ferrada quanto estou. Por mais que eu tenha tentado, não posso tornar-me uma pessoa fria. Não eu. Não posso transformar-me naquilo que eu mais repudiei. A ânsia do ódio percorre as minhas veias, o desejo de acabar comigo mesma é insistente. Meu estômago se contorce com uma náusea provocada pelo nojo. É inútil, não consigo odiar.
      Por mais que eu tente odiar, é impossível. Mesmo que eu ache que cada ato é o último. Essa pode ser a minha última madrugada. Esse pode ser o meu último texto. Mesmo que seja o último piscar de olhos, o último sorriso, a última pronúncia do nome dele. Meu coração dói, se despedaça. Tenta se recompor, tenta se regenerar. É inútil, meu coração já foi atingido, minhas costelas também foram. Estou zonza, com a visão embaçada e tudo está escurecendo. Meu braços estão formigando, minhas mãos estão ficando geladas. Como eu detestava o cheiro forte de sangue. Outro tiro. Eu não clamo por piedade, não mais. Não há nada que se possa fazer. Eu falo algo, lanço pragas para o meu assassino. Eu ainda não o odiei.
      O céu parece mais iluminado, só aquela luz amarela. Eu irei para o céu? Não, eu não mereço. Era apenas o sol. Outro tiro. Dessa vez meu estômago foi atingido. Como eu ainda estou viva? Ninguém o detém. Gritos e mais tiros, alguém o matou. Eu ainda estou viva! Porém, eu não escaparei. Alguém me abraça e chora, mas eu não reconheço a voz. Não eram meus pais, não eram nenhum dos meus amigos. Meu amado apareceu nos últimos minutos, chegou na hora certa. Eu não tenho mais salvação, mesmo que ele diga que ficará tudo bem. Ele está encharcado com o meu sangue. Eu digo que o amo, mesmo com a voz fraca. Ele conseguiu entender, falou que me amava também. Ele chegou na hora certa, eu ainda consegui dizê-lo o que eu realmente sentia. Minha missão era essa: amá-lo. Eu ouço os gritos dele, ele grita o meu nome. A voz dele está muito distante. Morri.

23 de out. de 2012

Telespectadores

      Era mais uma noite de julho, as luzes da rua estavam queimadas. Não havia acontecido nada de extraordinário até então. Até que um estrela caiu, porém, há muitos anos eu não fazia pedidos. Mesmo com pouca idade eu já tinha uma mentalidade de escritora, já não via tanta inocência no mundo. Eu sofri muito com essa fase, mas as coisas sempre podem piorar. E pioraram.
      O motoqueiro surgiu na minha vida depois das 22:00 h, numa noite estrelada e para nunca mais sair. Tatuado, com um olhar profundo, com muitos sorrisos. Ora parecia um anjo, ora um demônio. Amante do perigo, impulsivo e um pouco descontrolado. Esse era ele, com seus 31 anos muito bem sofridos. De imediato ele não me encantou, não encantaria ninguém. Eu zombava dele, o desprezava. Mas, o tal olhar profundo guardava algo familiar. Algo que eu não descobri de cara.
      Mas eu o conheci, despi sua alma, deixei-o transparente aos meus olhos. Imundo, ele era imundo. Tinha uma alma carregada e uma mente culpada. Cheio de remorsos, remorsos inúteis. Traumatizado, ele carregava um coração cheio de traumas incuráveis. Eu nunca havia sentido tanta vontade de curar alguém, mesmo que nada pudesse fazer. Ele choraria com qualquer afago, então eu evitei aproximações.
      Ele me trouxe muitas decepções com os atos por ele cometidos. Eu o perdoei por ter aquele passado. Eu o amava, descobri tardiamente. Já não consegui afastá-lo. Correspondi os sorrisos dele com uma doçura que eu nem imaginava ter. Minha voz mudava com a aproximação dele, como disse Balzac: "O amor já está no tom de voz, muito antes que seja confessado pelo olhar." Sim, minha voz mudava. Se tornava doce, baixa, uma voz de ouvir e sorrir imediatamente. Maldito tom de voz.
      Não era uma máscara, nem jogo de duas caras, era uma mudança de estado de espírito. Com ele, minha alma ficava em estado de graça. Ele também se transformava, era uma espécie de comunicações de pensamentos. Comunicação alienígena. Era estranho, ainda é.
      Os poucos que sabiam da história julgavam como amor de outras vidas. Eu pensei na hipótese, mas, não acreditei. O que eu mais fiz depois de conhecê-lo foi pensar. Mudei conceitos, reformulei pensamentos e passei tudo para um papel. Ele foi o meu maior impulso para começar a escrever, eu já possuía o dom, só faltava a inspiração. Por isso que eu nunca o odiarei, mesmo que já tenha tentado.
      Assim como no início, eu continuo evitando aproximações. Os anos passaram, cada um tomou seu rumo. Um cuidando do outro, seja por pensamentos, orações, o que for. Claro que o amor ainda existe, só que amadureceu. Mas, está bom assim. Nós dois estamos contentes como telespectadores, cada um na platéia da vida do outro.

22 de out. de 2012

Teatro vazio

      Ela caminhava sem medo algum pelos camarins escuros do teatro, apreciando cada detalhe que não conseguia distinguir. Foi ao palco, lugar onde nomes ilustres colocaram seus pés cansados. Ela pisou em um chão cheio de histórias, amores, ódios, frustrações e todo um emaranhado de sentimentos. A menina sempre teve um olhar apurado e um coração mais sensível que os demais...
      Não, ela nunca quis ser bailarina, muito menos atriz. Mas, gostava de todo o peso das paredes daquele teatro. Dos assistentes à platéia, tudo a encantava. Pra ser sincera, aquele teatro era uma espécie de paraíso mascarado. Um depósito de sonhos e imundícies.
      Não foi nada fácil para ela permanecer ali, escondida em uma parte oca de uma parede até que os aplausos cessassem, até que a última bailarina tomasse o seu rumo. Até que restassem apenas uma meia dúzia de porteiros na entrada do enigmático teatro. Foi um sacrifício, um ótimo sacrifício.
      O teatro era encantador, sim. Ao mesmo tempo em que era fantasmagórico. Um lugar repleto de falcatruas imundas e de sonhos destruídos por atos mais imundos ainda. Tudo acontecera entre aquelas paredes. O teatro carregava em seus poros o sangue de muitas almas, inocentes almas que pensavam que aquela construção esplendorosa guardava apenas maravilhas. Coitadas.
      Ela ouvira falar, que há anos atrás aconteceram dezenas de homicídios naquele teatro. Ao lembrar disso ela quase conseguiu ouvir os gritos das pessoas sendo assassinadas, o odor do sangue, a dor e a impunidade. Ela sentiu o cheiro enjoativo de maconha, que impregnava as cortinas e deixava o ar pesado; provavelmente, entre todas aquelas pessoas depressivas, haviam viciados em drogas e coisas inimagináveis. Ela escutou passos que não existiam, ou existiam. Passos de espíritos, almas presas naquele lugar que se parecia com algo familiar. Algo que ela desejava conhecer... O teatro vazio era quase uma alma humana.