2 de mar. de 2014

Tepidamente

"Cuántas palabras, sólo para decir que no quiero parecer patético."
La tregua, Mario Benedetti.

Vê-la hoje, até parece irreal. O caos já não me basta, por isso chorei querendo a presença de quem o ameniza. Deus me escutou? Quisera eu poder andar despreocupadamente, como alguém que vive. Ser dói. Corrói. Destrói. Ser está além do eu, além do que posso decidir. E eu, estou muito além do que eu queria. Um além que tem dois passos dados para trás. A insanidade me neutraliza por alguns instantes, me faz ensopar com lágrimas um travesseiro. Tudo passa, para retornar alguns dias depois. Em um ciclo de um eterno retorno.

Fosfeno

E te amava em pensamento
Em cada movimento
Te amava sem medo
Falando coisas banais
Sorrindo como alguém que
De tanto acreditar no impossível
Consegue vê-lo realizado

E amava sem saber escrever
Fazendo de versos simples
Algo difícil de entender

Assim eu te amava
Naquelas tardes anoitecidas
Com horas contadas
Palavras sussurradas
E coisas não ditas

Amava
No transbordar da alma
Na vontade de não soltar tua mão
No bater mais forte do coração

Te amava sem saber expressar
Coisa que ainda não sei.

Espelho

E tão desabituada
Ao meu sorriso estava
Que o estranhei.
Fui alheia:
Ao meu reflexo,
Sombra,
Contato.
Alheia
Ao eu
Abafado
Maquiado
Conforme
O ambiente.

Telefonema

O telefone toca.
A vida toca.
Ora para os lados,
Ora para a toca.

A música toca.
O ouvido reconhece o toque.
Permaneço na toca:
Não atendo.

Desassossego

Não dormir
Apenas ver
Nuvens muito brancas
Em um céu muito escuro

Não dormir
Apenas sentir
O coração apertar
Sufocar dentro do peito

Não dormir
Apenas ser
O medo de não conseguir
O medo de desistir

Não dormir
Apenas o não
Do nada vir
Para o nada voltar.